sexta-feira, 4 de maio de 2007

UM FRIO NAQUELE PONTO DE ÔNIBUS!



Fazia frio no ponto de ônibus naquela noite. Nada pra olhar, ler ou tomar. Olhei o relógio. Nove horas. Lembrei de você. Era o seu horário, o seu ponto. Você me emprestava aquele casaco preto antes que meus dentes começassem a bater.
Do outro lado da rua, homens bêbados no balcão de uma padaria falavam alto. Ao menos, me distraíam.
Quando o ônibus chegou, fiz sinal e ele parou. Com o pé no degrau e na mira dos olhos cansados do motorista, recuei. Uma esperança de te ver pela última vez. Mais uma vez, você me fazia passar frio.
O que eu diria se você aparecesse? Talvez atravessasse a rua para me esconder no meio dos homens e da cerveja. Talvez fosse melhor eu me preparar com uma dose de qualquer coisa com mais de 50% de teor  alcoolicoantes de você chegar. Por sorte era noite e não repararia na minha bochecha vermelha, que fica assim só quando eu vejo você, depois daquele dia.
“Filho da Puta! Traidor” - alguém gritou do outro lado da rua. Não era preciso olhar para saber que vinha da padaria. Lembrei de você e me arrependi de não ter tomado aquele ônibus barulhento. Senti vergonha do que fiz. Fiquei quente. Eu pegaria o próximo. Rezei para você não aparecer. O ônibus demorou. Atrasado. Como sempre. Como você.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

EU DECIDO.


Ele dança conforme a música, mas só se mexe quando conduzido. É meio feminino, mas agrada.
Não há o que definir. O meu romantismo simpatiza com a idéia de que ele esteja petrificado de medo. É mais interessante assim.
Pode ser indiferença. Deve ser.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

!


Já não somos mais jovens. Há pouco tempo me dei conta. Somos lentos para atravessar as ruas na faixa de pedestres. Os faróis de hoje abrem depressa demais. Você segura a minha mão? Vamos.
Ouvi, dia desses, uma menina dizer que somos chatos quando falamos demais do nosso passado. Deveríamos ser enfeites? Bibelôs que cozinham aos domingos para a família e ficam sentadinhos e quietos na hora do cafezinho? Não sou nenhum bichinho de estimação, viu. Sempre conversei. Sentava com as meninas e falávamos de tudo. Elas tinham tempo e vontade de ouvir o que eu precisava contar. Eu fazia o mesmo.
Acham-nos entediantes por sermos lúcidos. Que preferem? Um derrame, uma cadeira de rodas, alzheimer? Estão acostumados a sentir pena de nós. Não quero. Sempre trabalhei e paguei as minhas contas. Lembra de quando ganhei aquele prêmio? Também jogava vôlei. Jogava bem o vôlei.
Era bonita, você se lembra? Claro que sim. Meus cabelos brilhavam, todos pediam o nome do meu xampu. Dançava. Eu rodopiava. Aquelas saias modernas. Eu adorava girar. Não caía e não ficava tonta. E agora querem me deixar sentada na cadeira com um vestidinho florido e sorriso estampado.
Fomos tantas coisas. Não vou deixar que ninguém me faça esquecer. Você me escolheu. Não foi por falta de opção, foi? Eu era especial, não era? Então por que ela falou aquilo?

quarta-feira, 18 de abril de 2007

VOCÊ NÃO TROCA



Eu troco meus dias livres por dias livres com você. E troco aquela noitada por filme em casa. Eu troco todos os telefonemas às amigas por uma ligação para você. Eu troco, não tem problema. E troco duas rádios memorizadas no som do meu carro por duas de sua preferência. Eu troco a minha reunião por um almoço com a sua mãe. Eu troco a minha timidez por mãos dadas. Eu troco Nova Iorque pela Baleia, se você quiser. Você quer? Eu troco minha frieza por olhos encantados. Eu troco meu sono por um bate-volta. E olha que não troco meu sono por nada. Também não faço bate-voltas por nada. Eu troco meu estado civil. Eu troco alguns planos meus pelos seus.
...........................................................................................
Eu troco o aniversário da minha melhor amiga pelo seu cansaço. Eu troco a sua companhia pela solidão. Eu troco a minha família por um dia com você. Eu troco o meu esporte pelo seu. Eu troco a minha casa pela sua. Eu troco um romance por um filme de ação. Mas só essa semana. Na próxima, você troca.
...........................................................................................
Destroco a sua vida pela minha.

terça-feira, 17 de abril de 2007

A GATA E O CAFÉ


Era uma gatinha muito particular. Chegava a casa da dona pela manhã, após longos passeios pelos bueiros da cidade. Já não era mais branquinha. O tom cinza de poeira cobria seus pelos curtos. Seu reloginho biológico avisava as oito horas da manhã, então ela aparecia pela entrada dos fundos da casa. Miando. Miava. Localizava o rosto moreno da dona, sempre à mesa da copa, que se levantava e servia-lhe a ração de salmão & atum na tigela verde. Na vermelha, água.
A dona da gata voltava ao seu café da manhã. Manteiga, pão francês, banana, leite e café. O cheirinho gostoso do café. Toda manhã ele visitava a cozinha da casa de pé-direito baixinho, baixinho. Saía da cafeteira italiana, que chiava logo que a água fervia. Chi chi. Chegava ao nariz grande da dona. Que cheirinho bom. Atravessava a porta da cozinha, rumo à lavanderia. Passeava pelas roupas ainda molhadas e dava bom dia ao sol. Era quando a gatinha acordava. Ela, que dormia no telhado em cima da máquina de lavar roupas, toda as noites, sem conhecimento da mulher morena, despertava assim que o cheirinho do café recém-passado entrava no seu nariz geladinho e molhado.
Terminada a refeição, gata e dona sentiam a barriga cheia. Uma moleza. A gata entrava na cozinha novamente, muda, e olhava a humana com seus olhinhos amarelos. A mulher pegava uma xícara de plástico e preenchia com o café cheiroso. Levava ao chão. E assim a gata bebia todo o líquido pretinho e gostoso. Não dormia o dia inteiro. Depois da última gota, as duas, cúmplices, se olhavam de novo. A dona recebia um “miaubrigada” da bichana, que partia. Não havia desespero, nem preocupação por parte da mulher. A gatinha voltaria no dia seguinte, às oito em ponto, assim que sentisse aquele cheirinho.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...