quinta-feira, 14 de junho de 2007

MÚSICA DE BORDEL

Depois de tantos anos, ainda olho para o espelho e, ajeitando meus poucos fios de cabelos brancos, cantarolo a música que você me mostrou naquela noite. Confesso que das minhas farras nos bordéis de Toledo das Campanhas apenas aquela tem capítulo exclusivo na minha vida. As outras resolvi em uma curta crônica, publicada há doze anos no jornal do meu bairro. Quando você me levou ao seu quarto, esperava que, ao trancar a porta, arrancasse a sua roupa. De maneira feroz, porém feminina. Não é o que vocês todas fazem? A inexperiência e o nervosismo fizeram você desencapar o violão. Você tinha uma voz limpa e suave. As últimas sílabas de cada palavra cantada produziam um som nasal gracioso. É esse som que me faz parar de mexer no cabelo para sorrir curto e distraído. Além da melodia, que não me saiu da cabeça. Uma letra que não consigo dizer. Contava a nossa breve história. Que história? Não voltei a lhe procurar. Você foi de tantos antes e depois de mim. A inexperiência e o nervosismo me fizeram nunca mais aparecer. Você também não abandonou a sua vida para bater na minha porta numa madrugada qualquer, chorando, de maquiagem borrada. Poderíamos ter sido. Focando os meus pés-de-galinha, pensei em lhe procurar. Publicar uma loucura nos jornais nos quais tenho contatos, poucos. Sou velho, hoje, e não tenho mais frescuras. Se quero usar chapéu de policial, uso. Uso e fico bem apanhado. Você cantaria pra mim?

quarta-feira, 13 de junho de 2007

PAIXÃO CAFÉ

     João, 32 anos, nordestino, maduro e carente. Desses que não são capazes de controlar a velocidade das batidas de próprio coração. Não conseguia dormir. Estava debaixo do edredon verde há uma hora com aquela taquicardia. De olhos fechados, procurando a melhor posição para se entregar ao sono. Resolveu apontar a barriga para o teto e levou os braços cruzados para a parte de trás da cabeça. Respirou um “dane-se” e levantou-se. Ao acender a luz, a claridade não o incomodou, pois a ansiedade pedia maior atenção. Foi direto à gaveta do meio da penteadeira da mãe, falecida. Pegou um envelope lilás, aberto, e tirou dele um papel arrancado de um caderno universitário. Palavras escritas a caneta bic azul. Se alguém pudesse vê-lo naquele momento o acharia bobo. Não é assim que definimos um homem que se rende a uma fantasia romântica? Alimentado de uma felicidadezinha efêmera, dobrou o papel pela terceira vez na mesma noite e o enfiou dentro do envelope, devolvendo-o à gaveta. Apagou a luz e no meio daquele silêncio, pôde ouvir o coração ainda mais acelerado. Deitou-se com um sorriso carimbado e tentou, outra vez, dormir. Em vão.  

quinta-feira, 24 de maio de 2007

PREGUIÇA II

Uma vontade de voltar às seis da manhã, quando estava frio e garoava. Ao abrir meus olhos, pude fechá-los imediatamente, porque o edredon estava macio, cheiroso e quentinho. De repente o miado da gatinha do outro lado da porta, trancada. Ela poderia se deitar perto de mim. Ouviria o seu ronronar e seu corpinho me aqueceria mais.
Uma preguiça às seis da manhã. Ainda bem, eu pensava, ainda bem que posso dormir mais três horas hoje. Ainda bem que existe rodízio de carros para manhãs como essa, típicas de São Paulo.

terça-feira, 22 de maio de 2007

porque

porque você não combina comigo. porque você nem é tão bonita assim. e seu humor é esquisito. sinceramente não vejo a mínima graça nele. porque você odeia criança e me mandou comprar um peixe em vez de ter filhos. porque você abomina drogas naturais. mas sugeriu que tomássemos bala naquela rave. principalmente porque odeio raves. porque ainda gosto dela. que não é tão decidida quanto você. nem tão esperta quanto você. também não fala doce como você. mas ela é mais presente do que você. porque, de vez em quando, não sinto vontade de te ver. porque você me proibiu de pagar a conta e porque odeio proibições. porque você me dá medo. porque acabei de sair de um relacionamento e não quero me envolver com ninguém. porque o seu perfume me faz lembrar da minha avó. porque você é para sair e comer uma pizza. porque você não sustenta uma conversa por mais de uma hora. porque minha mãe não gostaria de você. porque você não me faz pensar em nada. embora seus olhos azuis me entretenham durante alguns segundos. porque estou conhecendo muita gente. porque tenho que ir com calma. porque você não é pra mim. mas você é pra alguém. só não pra mim. porque consigo achar tantos porquês.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

O CHEIRO DE CIGARRO NO DIA SEGUINTE

     De repente acordou. Um vazio. Ela não estava ali. Há tempo demais. Sensação ruim acordar cheirando a cigarro e bebida sozinha. Decidiu voltar a dormir. E assim foi até o dia seguinte. Os sonhos não lhe tiraram a sensação de podridão. Voltava a ser mais uma mulher comum. Mais uma mulher que não tinha para onde voltar. Para quem. Detestou a solidão. Detestou a independência. Detestou o “quero dançar com outro par para variar, amor”. Detestou, durante todo o final de semana.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...