terça-feira, 24 de julho de 2007

RECOMENDAÇÕES

Eu, deitada, serena, de olhos fechados e margaridas cobrindo o meu corpo do quadril até os pés. Obrigada, mãe. Era exatamente essa flor que comporia o meu buquê de casamento. Você preferia as rosas vermelhas, a tia também, mas gosto da beleza simples da dessa florzinha pequena e branca como eu. A família veio em peso. Achei que não gostassem de mim. Ou ficava quieta em algum canto da sala ou alfinetando o comportamento cafona de alguém ou me controlando para não pensar nisso ou duvidando que não haja um micareteiro na família da Fernanda Torres. A realidade: estavam ali por causa da minha mãe. Depressiva, apegada, frágil, dependente, dramática. Sou vaidosa e não aprovo a foto que está em cima da mesa. Poxa, mãe! Chegou uma coroa de flores. “Saudades. Amigos do Trabalho”. Onde estão que não vieram? Deletem o meu perfil no orkut! Pai você tem a senha. Não quero saber de mensagens para uma defunta. É esquisito. Nada de você vai fazer falta, te amamos para sempre, você foi única, não existirá melhor amiga, sua alegria ficará em nossas memórias. Não estarei mais aqui para ler nada. E juro que se for possível, volto e puxo o pé desses atrevidos. Um por um. Durante as madrugadas frias e sombrias de julho. É um desrespeito. É cômodo. Gostam de mim? Visitem-me no “Chora Menino”, estarei ao lado do limoeiro, onde se pode ver o pôr-do-sol mais bonito no verão de São Paulo. Tratem de não me esquecer ao longo dos anos. Quero figurar nos assuntos das festas de aniversários, nas fotos dos vídeos de casamentos, nas mesas das happy hours, na tela de proteção do computador, na lágrima e no soluço quando ele se tranca no quarto para chorar por mim sem que ninguém saiba. Quero todas as nossas cartas dentro de uma caixa especial colocada em um lugar de destaque na sua sala e que a sua mãe se emocione sempre que vocês se  lembrarem de mim.

Deixem meus livros para a Joana, o carro para o meu irmão, minha cortinha de fuxicos para a Lila. Devolvam a coleção do Cartola para o Beto. Se quiser e tiver coragem, ela pode ficar com as minhas roupas. Registrem os meus textos, vai que. Atendam o meu celular e anotem o e-mail das pessoas (eu escrevi  uma mensagem especial para os meus amigos atrasados). Não doem a Algodão para ninguém, por favor. Pintem a parede do meu quarto de vermelho e chamem a Ale para ver como ficou.

Fui embora e não realizei nada. Não era a minha hora. Nunca é. Quando ele se foi ainda sonhava tanto, ainda planejava voltar ao Brasil e morar nas serras gaúchas, fazer uma horta e cuidar de coelhos. Eu ainda queria uma vista para a lua, o marido de calça de pijama e as nossas tardes cheirando a manjericão e doces de Cora Coralina.

 

segunda-feira, 23 de julho de 2007

VENTO QUENTE

- Esse vento quente é gostoso.
Enquanto, juntos, esperavam a amiga se despedir de todos, ficaram quietos.
Fale alguma coisa, ela pensou.
Ele não falou.
Então faça qualquer bobagem.
Ninguém fez.
Ela olhava para a parede.
Ele, para o céu.
- Esse vento quente traz chuva. Gosto da chuva que vem depois destes vinte e cinco graus.
Ele pensou em fazer graça e não fez, porque se sentiria imbecil.
Ela pensou que ele poderia fazer uma gracinha imbecil qualquer.
Continuaram a pensar demais.
Ela enrolava o dedo no cabelo comprido, de maneira repetitiva.
Ele, com as mãos nos bolsos, continuava olhando o céu.
A amiga chegou e a levou embora. 
Não teve coragem de olhá-lo nos olhos ao se despedir e ele não teve vontade.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

DEIXE-ME OLHAR PARA ESTA PAREDE ANTES

     Deixe-me olhar para esta parede antes que você entregue a chave. O que você vai fazer com a caixa de sapatos onde guardávamos as fotos? Se for queimá-la, reconsidere. Posso ficar com todos os álbuns. Não entendo porque a cama vai para a sua irmã. Eu não quero a geladeira, mas fico com o microondas que decorei com adesivos modernos. Vou tirar só as letrinhas do seu nome. As que estavam em azul, porque você gosta de azul. Posso levar o escorredor de macarrão? É seu, mas você odeia massa e eu não vivo sem espaguete. Troco pelo cinzeiro roubado no Amarelinho. Vamos dar a tinta branca que sobrou da reforma para o porteiro? Também quero me desfazer do nosso edredon. Acho melhor você também não levar. Olhe esta sala, quase comprei um tapete na semana passada. Quase. Ainda bem que não. Era listrado de azul e branco. Porque você gosta de azul. O que vai ser do seu escritório? Lá não tem espaço. Vamos ter de dividir as plantas. Você comprou, mas eu cuidei. Fique com as grandes. Eu me responsabilizo pelos temperos. É melhor limpar o chão. Você acredita que ainda tem cerveja da festa da semana passada? Ninguém vai esquecer das nossas festas. Nem os vizinhos. Falando nisso, preciso devolver a panela da senhorinha do quarenta e um. Tão simpática, mas não gostava de você. Agora é hora de ir. Quero, pela última vez, ver da varanda tudo o que via pelas manhãs. O gato preto na janela balançando o rabinho, a mulher velha varrendo o chão da rua de chinelo e meia grossa, os passarinhos conversando nos galhos das árvores, meu carro estacionado, o seu. Para sempre vou lembrar do cheiro do café com leite e do pastel que você trazia da feira aos domingos, mesmo sabendo que eu não comia nada oleoso. Deixe-me olhar para esta parede antes que você entregue a chave. Eu gosto da cor dela. Você também. Leve a chave e fique com o meu chaveiro, por favor, que eu fico com o seu.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

MÚSICA DE BORDEL

Depois de tantos anos, ainda olho para o espelho e, ajeitando meus poucos fios de cabelos brancos, cantarolo a música que você me mostrou naquela noite. Confesso que das minhas farras nos bordéis de Toledo das Campanhas apenas aquela tem capítulo exclusivo na minha vida. As outras resolvi em uma curta crônica, publicada há doze anos no jornal do meu bairro. Quando você me levou ao seu quarto, esperava que, ao trancar a porta, arrancasse a sua roupa. De maneira feroz, porém feminina. Não é o que vocês todas fazem? A inexperiência e o nervosismo fizeram você desencapar o violão. Você tinha uma voz limpa e suave. As últimas sílabas de cada palavra cantada produziam um som nasal gracioso. É esse som que me faz parar de mexer no cabelo para sorrir curto e distraído. Além da melodia, que não me saiu da cabeça. Uma letra que não consigo dizer. Contava a nossa breve história. Que história? Não voltei a lhe procurar. Você foi de tantos antes e depois de mim. A inexperiência e o nervosismo me fizeram nunca mais aparecer. Você também não abandonou a sua vida para bater na minha porta numa madrugada qualquer, chorando, de maquiagem borrada. Poderíamos ter sido. Focando os meus pés-de-galinha, pensei em lhe procurar. Publicar uma loucura nos jornais nos quais tenho contatos, poucos. Sou velho, hoje, e não tenho mais frescuras. Se quero usar chapéu de policial, uso. Uso e fico bem apanhado. Você cantaria pra mim?

quarta-feira, 13 de junho de 2007

PAIXÃO CAFÉ

     João, 32 anos, nordestino, maduro e carente. Desses que não são capazes de controlar a velocidade das batidas de próprio coração. Não conseguia dormir. Estava debaixo do edredon verde há uma hora com aquela taquicardia. De olhos fechados, procurando a melhor posição para se entregar ao sono. Resolveu apontar a barriga para o teto e levou os braços cruzados para a parte de trás da cabeça. Respirou um “dane-se” e levantou-se. Ao acender a luz, a claridade não o incomodou, pois a ansiedade pedia maior atenção. Foi direto à gaveta do meio da penteadeira da mãe, falecida. Pegou um envelope lilás, aberto, e tirou dele um papel arrancado de um caderno universitário. Palavras escritas a caneta bic azul. Se alguém pudesse vê-lo naquele momento o acharia bobo. Não é assim que definimos um homem que se rende a uma fantasia romântica? Alimentado de uma felicidadezinha efêmera, dobrou o papel pela terceira vez na mesma noite e o enfiou dentro do envelope, devolvendo-o à gaveta. Apagou a luz e no meio daquele silêncio, pôde ouvir o coração ainda mais acelerado. Deitou-se com um sorriso carimbado e tentou, outra vez, dormir. Em vão.  
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