quarta-feira, 9 de abril de 2008

ELEVADO COSTA E SILVA

Era manhã quando o cheiro do Elevado Costa e Silva escorreu pelo corpo de Nice com água, espuma e células mortas. A Rua Rosa e Silva desceu pelo encanamento da casa branca descascada. O Puteiro do Alves, camuflado com a placa amarela Sinuca Chuchu em sua fachada, conheceu os ratos da zona norte que, assim como os moradores dizem “É nóis!”, mas na língua ratatouille. O Bar do Nogueira e o próprio Nogueira escorregaram ébrios na gelatina marrom do esgoto de Santa Terezinha. A Padaria Palmeira passeou pelo mundo que há embaixo do Salesiano e do Mazzarello e ecoou: pizza napolitana! pizza napolitana... litana... tana... tana...

Era manhã quando o travesseiro exalou a saliva ocre. O azedo da fronha, nem as lavagens à mão de Cirlei às quintas-feiras removeriam. Talvez só o conseguiria o sol da semana seguinte. O sol que se comprime ao passar pela janela do quarto de Nice, das oito e vinte e três da manhã às duas e quarenta e cinco da tarde, e esquenta o edredon virgem bordado à mão pela tia-avó. Um espaço em que o Elevado jamais transitaria não fossem os goles abundantes e necessários de um dia anterior.

quinta-feira, 27 de março de 2008

VODU

Agulho o peito de pano

É pouco!

Espeto sua cabeça de espuma

Arranco a mordidas braços e pernas

Você não arde

Ela não transborda

nem sangra


O flagra se repete

Você, a mesma

Cravo em seu peito um espeto de carne

Cai o meu boneco de pano

Escorre a sua última indiferença

quarta-feira, 26 de março de 2008

PELA PORTA

Quem é essa mulher e por que ela não pára de olhar para a porta? Eu não vou aparecer para o seu contentamento. Odeio agradar. O estalar dos seus dedos me irrita a ponto de eu manchar o seu vestido branco com o meu vinho tinto. Recuso-me a pagar a lavanderia! Posso, no entanto, lamber os respingos em seu rosto macio com a minha língua áspera. Não quero um beijo. Quero lhe dar um espelho e a foto dos meus três filhos. Não quero um amor. Se ela concordar, cumpre oito horas diárias. Pago o seu bilhete Único. E tem a minha camiseta listrada de vermelho e azul-marinho. Ela sabe lavar? Parece-me do tipo que não reclama das mãos secas de sabão. Pensando bem, é bonita, mas olha para a porta insuportavelmente. Sua devoção desperta a minha sede. Que pernas, puta que pariu! Ela quer? Eu quero. Hoje. Por enquanto. O dia seguinte, resolvo a minha maneira: a ausência canalha no café da manhã, enquanto ela olha para a porta e me espera voltar.

sexta-feira, 14 de março de 2008

LIMÃO-BANANA

Vocês já viram um limão com vontade própria? Eu não, mas soube de um. Aconteceu na semana passada com a minha vizinha de seis anos. Abri a porta e dei de cara com a Yasmim chorando e foi difícil me controlar para não rir daquela coisinha de bochechas gordas, borrando toda a sua maquiagem de palhaço. Era dia do circo e as professoras fizeram essa surpresa para a criançada. “Que aconteceu, Yasmim?”. Entre soluços e fungadas ela me contou que um limão não sabia se queria servir de suco para ela. No Pré-III eu conversava com a pia do banheiro e via sombras andando pelas paredes de casa, então achei que fosse coisa da idade e me ofereci para acertar as contas com o limão. Mas não éramos tão parecidas assim, já que ela agradeceu, mas recusou a minha ajuda. Disse que era um assunto que deveria resolver sozinha com o limão. Ver uma criança auto-suficiente me dá raiva. Não dela, mas de mim, que sempre fui uma tonta incapaz de solucionar os problemas da infância sozinha! Uma bronca da professora se traduzia em fracasso. Mas coisas sérias nunca me abalaram. De um acidente de carro na Marginal Pinheiros a um assalto com revólver na cabeça há dois dias. Então aquele limão medíocre se fazendo de difícil para a minha vizinha de seis anos... Era sacanagem! Eu queria dizer para a Yasmim procurar outro limão, já que esse não estava cooperando e que os limões são todos iguais! Eu queria entrar na casa dela à noite e jogar a laranja da fruteira no lixo, porque com certeza ela devia ter alguma coisa a ver com isso. Mas achei que talvez fossem visões muito precoces para uma menininha do pré-primário. Não queria ser a responsável por ela odiar os limões para sempre e não experimentar caipirinha (de pinga, saquê ou vodka) na adolescência.

Logo soube que Yasmim só havia tocado a minha campainha para pedir uma música. “E desde quando você conhece Mombojó?” E essa malandra ainda tem um gosto musical bacana! Só faltava fumar e discutir o cinema de Antonioni tomando cappuccino! O limão havia contado que gostava das músicas do Mombojó. Emprestei o primeiro álbum.

Naquela noite Yasmim ligaria o radinho do seu quarto para ouvir a faixa oito, Adelaide. Apagaria a luz e esperaria pelo sono contando limõezinhos espremidos em uma jarra de suco transparente. Eu sentaria para tomar uma cerveja com os amigos, porque de caipirinha já enjoei (elas são todas iguais!) e pensaria em uma maneira de fazer Yasmim colocar esse limão contra a parede. Se ele não quisesse virar suco, que tivesse a coragem de dizer, assim ela poderia abrir a geladeira a pegar uma maçã.

quarta-feira, 12 de março de 2008

O SONHO

Sonhava que mastigava um golden retriever. Engasgou com os pêlos. Tossiu. Sentiu que as unhas do cachorro estavam grandes demais, quando a língua ardeu e o gosto salgadinho de sangue misturou-se à saliva. Engoliu.

Ao acordar, um alívio. Fazia de chupeta a pata da gatinha siamesa. Voltou a adormecer com o sabor de chão sujo na boca e uma picada de pulga na gengiva.

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