segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

EU ME OUVIRIA...

Se ela encantar os seus olhos, desvie.

Se segurar a sua mão, desconfie.

Se cobrar decisão, peça refrigerante - porque a cerveja responde sem te consultar.

Se ela se aproximar, bloqueie o desejo. Ocupe a boca com desprezo.

Quando for embora, reze para que ela não desista.

Segundas chances são fraquezas do lado sonhador.

domingo, 4 de janeiro de 2009

O ANO NOVO



Nada tirou tanto o sono de Alice quanto seus pensamentos competindo com roncos e grilos na escuridão de um quarto com beliches. Pensamentos que, se ela contasse a alguém, tapariam com as mãos a paciência dedicada nesses dois anos. Encheram-se. Não há mesmo o que se fazer. Ela sabe. Só sonhar. Acordada. Inverter o pesadelo da crueldade em que vive. E ao inverter, ao sorrir cada vez que o retrato sobrevoou seu travesseiro nessas noites, chegou a uma conclusão. Alice vai aprender a acariciar esbarros com gentileza e distância. Daqui pra frente. Ou só neste ano. Uma experiência que, quem sabe, consiga lapidar tanta intensidade quando ouve certos passos preenchendo o corredor. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

ELE NÃO VÊ A HORA DE GRITAR FELIZ ANO NOVO PARA SETE ONDAS

 

Não confraternizou. Só passou raiva. Nem beber, bebeu. Quer dizer, não encheu a cara. Forçou sorriso. Forçou obrigados. Forçou tudo bem. Ouviu sobre cruzeiros e música eletrônica e que homens quando cozinham, são melhores que mulheres. Teve até agressão sutil da tia na sogra. Ainda bem que ele não estava lá. Mas tentaram trazê-lo de volta. Que coisa essa no seu trabalho! E quando casa? E quando vem me visitar? E tá feliz? E tá triste? E por que você não me ligou? E o que vai fazer agora? - trabalho voluntário no Quênia, serve? - Assuntos chatos demais para alguém que só queria ficar sozinho e olhar para a foto dela mais um pouco antes de deletar e trancar essa dor em 2008.

sábado, 20 de dezembro de 2008

NÃO DESEJO PAZ, SAÚDE, DINHEIRO E PRINCIPALMENTE AMOR

 

   Alice não vai escrever cartões de Natal. Porque o ano não foi bom. Foi vazio. Cheio de expectativas esfareladas. Cheio de descompromissos anunciados para os quais ela fechou os olhos. Cheio de noites omitidas pelo álcool. Cheio de amor banalizado. Alice culpa um certo cartão que enviou há um ano. O azar como resultado de uma ingenuidade daquelas palavras. Mas é ingênuo todo impulso aceso pelo mistério. Porém de arrepender-se, Alice não é capaz. Não reprime grito e suor e lágrima e arranhão e vômito e gargalhada e tapa na cara. É de excessos. Gosta de contar os detalhes, nem que seja apenas para lençóis salgados e ainda virgens. Alice não erra na segunda. O cartão vai ficar para os livros que ela ainda vai escrever. Ela espera que, ao ler, Chico não se lembre daquele fim de ano. Mas que ele leia. E que se lembre dela. E que dêem risada do incômodo que a raiva causa hoje.

 

sábado, 13 de dezembro de 2008

 

E tira essa mão da minha perna e os olhos de cima da mulher encostada na parede! Que mania de todo mundo você tem!

E sai da minha frente que eu vou deixar o bar e você!

E vem atrás de mim quando eu dobrar a esquina!

E fica quieto enquanto eu rego o seu ego com meus destratos!

 

E finge que acredita!

 

E tira as desculpas da manga!

E forra as minhas confusões com silêncio!

E encosta logo um pouco de vontade na minha boca!

E não me deixa ir embora sozinha desta vez!

E volta aqui!

Volta...

 

Eu finjo que acredito.

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