quarta-feira, 1 de julho de 2009
BIG BLOGGER
quarta-feira, 17 de junho de 2009
LÁ DENTRO
quinta-feira, 4 de junho de 2009
UM BEIJO EM REDE NACIONAL
Formei-me jornalista com o sonho de escrever para algum caderno de cultura, porém contas a pagar só combinam com os sonhos da hora de dormir. Quando Cristiana revelou à família que eu trabalhava no mesmo programa de astrologia, sua avó não se interessou em saber se o apresentador era realmente astrólogo, nem se era o próprio quem escrevia - de segunda a sexta, horário comercial - tudo o que os astros reservam aos signos do zodíaco.
Se me permitem confessar sem que suas ilusões, meus leitores, desfaçam-se com violência, eu sou o responsável pelo que acontece a cada um de vocês no amor, na carreira, na saúde e no sexo. Sei de cor o cruzamento dos signos e aconselho de antemão: piscianos, corram da cama dos sagitarianos!
No meio do almoço em que serviu coelho com alecrim, sua receita que mais detesto, dona Julieta me pediu:
- O Fernando Garcia poderia mandar um beijo pra mim?
Tocou a minha mão. Há uma certa doçura nesse tipo de desejo. Um beijo em rede nacional. Prometi, sem que o gosto seco da coxa do coelho e a aversão de Fernando Garcia a agradar fãs com beijinhos para as câmeras interferissem no compromisso que eu acabava de assumir.
Acho Fernando Garcia um homem cinza. Sempre tenho a impressão que as pessoas secam quando ele passa. Mesmo assim, decidi brigar pelo beijo de Dona Julieta. Ele fingiria não me ouvir e eu voltaria para casa satisfeito. Pelo menos tentei.
Aproveitei a terça-feira em que ganhei um bom dia de Fernando Garcia. Trabalhei a respiração, levantei-me da cadeira e andei em direção a ele, que olhou para dentro de mim. Sua expressão secou minhas mãos suadas de nervoso e a saliva da minha língua, que já implorava pelo gosto do coelho com alecrim de Dona Julieta. Desviei de Fernando Garcia e fui para a cozinha pegar um copo de água.
sábado, 23 de maio de 2009
MINHA CARTA DE ADEUS
Eu não queria acreditar. No fundo, esperei que ele me dissesse o oposto do que eu pressentia. Se essa coisa de Orkut não existisse, talvez eu nunca soubesse.
Ele não era da minha turma. Era bagunceiro e não gostava de estudar. Mas sorria pra mim com vergonha. E quando queria me deixar constrangida na frente de todos, me chamava de branquinha, que é como minha mãe fazia. Meninos! Lembro dele batendo a régua na mão. Lembro dele cantando samba. Lembro de alguns jogos de futebol. Ele vermelho. Lembro de pouca coisa.
Nossas mães eram amigas. Conversavam na saída do colégio. Esperavam por nós. Mesma série. Os carros parados em fila dupla de vez em quando. Fala tchau pro seu amigo! Vocês não se falam na sala de aula?
A mãe dele era bonita e tinha um carrão. O cabelo comprido e loiro que pude rever nas fotos do álbum do irmão dele na internet. Ela continua bonita e ele seria tio. Mãe, olha só! Uma foto do primeiro a aniversário da neta dela! Cadê ele? Deve estar em Londres. Todo mundo vai pra Londres.
Nos últimos dias a minha mãe vinha insistindo para procurá-los. Sinto tanto a falta da minha amiga. Como será que ela está? Vocês falam tanto desse Orkut, mas não usam pra nada! E eu já pensei que se tudo estivesse normal, do jeito que os deixamos ou que eles nos deixaram – estaria normal e só. Trocaríamos umas mensagens. Casou? Virou pai? Médico? Vem pra cá qualquer dia e a gente sai. Tudo normal. Mas não estava.
Se lembro de tão pouco, por que que chorei quando soube da verdade? Londres nunca existiu, não é? Você também não era o fotógrafo da foto da sua sobrinha. Sua mãe ficou bem? Lógico que não. Você se lembra do Alan, seu amigo? A mesma história, dez anos antes. Manda lembranças por mim?
Estamos aqui. De onde só saio quando chegar a minha vez. Espero que não tão cedo. Já faço uma idéia de como será. Enquanto espero, escrevo algumas bobagens pra passar esse tempo. E tomara que alguém perca o seu lendo. E tomara que sirva pra alguma coisa. Porque tudo é tão curto. Quando nos damos conta, temos 30 anos e nenhuma foto da viagem dos sonhos. Porque ela não aconteceu. Quando acordamos, já se passaram seis meses e você ainda não disse como ele estava bonito usando um gorro de lã naquela noite. Não quero de repente, me deparar com o quarto de um hospital e três meses de vida.
Vou desligar meu computador. Entrar no banho. Deixar minhas lágrimas se confundirem com a água do chuveiro. E vou pra rua. Preencher a vida com melhores instantes. Chega de cadeira. Peciso participar mais do tempo. Querido amigo, fique em paz. Se puder olhar por mim de vez em quando, eu deixo você me chamar de branquinha de novo. Sorrindo. Na tristeza de minhas poucas lembranças.