quarta-feira, 1 de julho de 2009

BIG BLOGGER

Engraçada essa coisa de blog. Alguns, tenho a impressão, de que escrevem pra si mesmos - o que pra mim é a única razão da escrita: eu mesma. É que post sem comentário... Não dá vontade de colocar aquele barulhinho de grilo? Parece que ninguém lê. Mas é mentira. O público existe, meus amigos. Só é meio fantasma. Nossos blogs são como um quarto em que há uma pessoa trocando de roupa. A fechadura está lá. Quem não tem vontade de dar uma espiadinha? Afinal, se a minha toalha tá caindo, é porque quero que vejam. E quem é você pra não presenciar o momento em que ela toca o chão?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

LÁ DENTRO

continua a mesma coisa: as portas se trancaram com força e uma massa tapou qualquer frestinha que pudesse soprar notícias das últimas explosões internas. Lá fora, a lâmpada esquenta o rosto pálido de Alice e ela comtempla o chão quadriculado da sala. Por alguns minutos. Depois se levanta e coloca a água do chá para ferver. Até ferver. Até sufocar o fogo. E dorme na cozinha. À espera das portas e janelas cederem.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

UM BEIJO EM REDE NACIONAL



É a avó da minha amiga Cristiana. Passa as tardes com a bunda fincada na poltrona e os olhos na televisão esperando dar a hora do programa de astrologia. Dona Julieta é fã do apresentador, não sei se por causa do queixo grande - igual ao do falecido marido - ou do sorriso de bom moço. Arrisco dizer que é paixão. Dona Julieta olha para a tela como eu, quando via a Alicia Silverstone nos videoclipes da MTV nos anos noventa.
Formei-me jornalista com o sonho de escrever para algum caderno de cultura, porém contas a pagar só combinam com os sonhos da hora de dormir. Quando Cristiana revelou à família que eu trabalhava no mesmo programa de astrologia, sua avó não se interessou em saber se o apresentador era realmente astrólogo, nem se era o próprio quem escrevia - de segunda a sexta, horário comercial - tudo o que os astros reservam aos signos do zodíaco.
Se me permitem confessar sem que suas ilusões, meus leitores, desfaçam-se com violência, eu sou o responsável pelo que acontece a cada um de vocês no amor, na carreira, na saúde e no sexo. Sei de cor o cruzamento dos signos e aconselho de antemão: piscianos, corram da cama dos sagitarianos!
No meio do almoço em que serviu coelho com alecrim, sua receita que mais detesto, dona Julieta me pediu:
- O Fernando Garcia poderia mandar um beijo pra mim?
Tocou a minha mão. Há uma certa doçura nesse tipo de desejo. Um beijo em rede nacional. Prometi, sem que o gosto seco da coxa do coelho e a aversão de Fernando Garcia a agradar fãs com beijinhos para as câmeras interferissem no compromisso que eu acabava de assumir.
Acho Fernando Garcia um homem cinza. Sempre tenho a impressão que as pessoas secam quando ele passa. Mesmo assim, decidi brigar pelo beijo de Dona Julieta. Ele fingiria não me ouvir e eu voltaria para casa satisfeito. Pelo menos tentei.
Aproveitei a terça-feira em que ganhei um bom dia de Fernando Garcia. Trabalhei a respiração, levantei-me da cadeira e andei em direção a ele, que olhou para dentro de mim. Sua expressão secou minhas mãos suadas de nervoso e a saliva da minha língua, que já implorava pelo gosto do coelho com alecrim de Dona Julieta. Desviei de Fernando Garcia e fui para a cozinha pegar um copo de água.

* CONTO QUE ESCREVI PRO SITE GUIA DA SEMANA

sábado, 23 de maio de 2009

MINHA CARTA DE ADEUS

 

Eu não queria acreditar. No fundo, esperei que ele me dissesse o oposto do que eu pressentia. Se essa coisa de Orkut não existisse, talvez eu nunca soubesse.

Ele não era da minha turma. Era bagunceiro e não gostava de estudar. Mas sorria pra mim com vergonha. E quando queria me deixar constrangida na frente de todos, me chamava de branquinha, que é como minha mãe fazia. Meninos! Lembro dele batendo a régua na mão. Lembro dele cantando samba. Lembro de alguns jogos de futebol. Ele vermelho. Lembro de pouca coisa.

Nossas mães eram amigas. Conversavam na saída do colégio. Esperavam por nós. Mesma série. Os carros parados em fila dupla de vez em quando. Fala tchau pro seu amigo! Vocês não se falam na sala de aula?

A mãe dele era bonita e tinha um carrão. O cabelo comprido e loiro que pude rever nas fotos do álbum do irmão dele na internet. Ela continua bonita e ele seria tio.  Mãe, olha só! Uma foto do primeiro a aniversário da neta dela! Cadê ele? Deve estar em Londres. Todo mundo vai pra Londres.

Nos últimos dias a minha mãe vinha insistindo para procurá-los. Sinto tanto a falta da minha amiga. Como será que ela está? Vocês falam tanto desse Orkut, mas não usam pra nada! E eu já pensei que se tudo estivesse normal, do jeito que os deixamos ou que eles nos deixaram – estaria normal e só. Trocaríamos umas mensagens. Casou? Virou pai? Médico? Vem pra cá qualquer dia e a gente sai. Tudo normal. Mas não estava.

Se lembro de tão pouco, por que que chorei quando soube da verdade? Londres nunca existiu, não é? Você também não era o fotógrafo da foto da sua sobrinha. Sua mãe ficou bem? Lógico que não. Você se lembra do Alan, seu amigo? A mesma história, dez anos antes. Manda lembranças por mim?

Estamos aqui. De onde só saio quando chegar a minha vez. Espero que não tão cedo. Já faço uma idéia de como será. Enquanto espero, escrevo algumas bobagens pra passar esse tempo. E tomara que alguém perca o seu lendo. E tomara que sirva pra alguma coisa. Porque tudo é tão curto. Quando nos damos conta, temos 30 anos e nenhuma foto da viagem dos sonhos. Porque ela não aconteceu. Quando acordamos, já se passaram seis meses e você ainda não disse como ele estava bonito usando um gorro de lã naquela noite. Não quero de repente, me deparar com o quarto de um hospital e três meses de vida.

Vou desligar meu computador. Entrar no banho. Deixar minhas lágrimas se confundirem com a água do chuveiro. E vou pra rua. Preencher a vida com melhores instantes. Chega de cadeira. Peciso participar mais do tempo. Querido amigo, fique em paz. Se puder olhar por mim de vez em quando, eu deixo você me chamar de branquinha de novo. Sorrindo. Na tristeza de minhas poucas lembranças.

 

 

segunda-feira, 18 de maio de 2009

DESCANSAR A CABEÇA EM...

Descansar a cabeça doente em areias claras. Não sentir culpa ao mimar os olhos com as reverências das ondas. Pensar nele de vez em quando. Nos objetivos, sempre. E desejar a água de coco mais gelada. O silêncio acobertando inquietações. As conclusões erguendo-se abatidas. Uma esperança de que nada mude. Mas que graça teria se tudo permanecesse? Cansar-se do conforto produz estímulo. Temperar a vida buscando momentinhos felizes. Posso pensar mais um pouco? Enquanto observo o mar escurecer cheio de adeus. Posso? Posso saciar a mágoa com lágrimas? E posso protegê-las da exposição? Só quero encontrar alguma coisa que ainda nem sei. Mas venho sonhando, durante as tardes, que preciso. No momento, minhas boas intenções sofrem. Minhas mãos. As ideias. A segurança. E tudo pode parecer tão recente. O grito sem propósito. Eu não deveria ter passado a tinta por cima da angústia que me cerca. Mas que outro jeito conheço eu para escapar de discórdias? Quero continuar seguindo. De perto. Posso? Com algumas restrições. Revezo a atenção entre consequências e bisbilhotadas ao céu que se maquia de vermelho. E decido. Me interromper? Não posso mais.
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