quarta-feira, 17 de outubro de 2012

CÁRCERE


Um amor estático flutua preguiçoso a três palmos do meu travesseiro, quando é madrugada e tudo é sussurro. Lembranças tristes e carneiros pulando brigam pelo primeiro lugar. Provo paciência. A página branca e tolerante freia um abraço. A distância é ríspida. Meu escândalo não te alcança, é desespero invisível. Insuportável é gostar sem ruído. Armazeno você num parágrafo, pra rabiscar mais tarde. Apagar mais tarde. Quando já for muito tarde. Muito tarde e adiável.

Meu mundo apático se embriaga de olhares perdidos. Nem sei o que miro. O dia se esgarça em frames. Tarefas e compromissos e gritos espancam a campainha do meu controle. A janela trancada - nem o ar respira aqui dentro - o cachorro esperneando atrás dela e, quando percebo, perdi uma hora. Sessenta minutos de você, chumbo agarrado aos meus tornozelos. Me enterrando em silêncio.

A sua felicidade abafando qualquer coisa que tenha me dito naquela ligação. Na surpresa de uma esquina que dobrei, em vez de te evitar. Numa fotografia que pensei ter apagado – ela tem seu cheiro e o meu agasalho também. E terça passada se me surpreendessem: a história de alguém que respira agasalhos e tem olhos encharcados de alguma coisa que um dia ganhei por engano. Seu cheiro, que não chamo de perfume, e algumas partes da sua vida me interrompendo. Freneticamente.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A HORA DE DORMIR




As pálpebras dele enganchadas a âncoras. O bocejo contaminando. Ele resiste ao desmaio. Insônia como opção. Encher a cabeça de informação, porque quando tudo se aquietar e o corpo ceder, só um pensamento: a maneira como ela enrolava o cabelo num coque e sorria perguntando se estava bom. E o perfume dela que apareceu na noite passada, quando ele bebia sozinho num balcão, e a vontade de não identificar a pessoa, para não destruir essa reaproximação. Era como abraçá-la de novo. Igual ao episódio da farmácia, quando brigaram, conforto e promessas de vai-dá-tudo-certo-pra-sempre-eu-sei-que-vai.
O que falta não tem nome. É espaço inabitável. Acordar ao lado dela foi só miragem. Enquanto ele esfregava os olhos, ela desaparecia, levando aquele bônus de tranquilidade junto; e a sacolinha da loja de roupas com o secador e as calcinhas. 
Sonhar tem sido triste e difícil de desviar. Ele não vai controlar por muito tempo, em poucos minutos, ela protagonizará as mesmas histórias descontínuas. 
Ao despertar, ele vai se ocupar de livros e café e faxina, atividades que a dissipem. Algo que a faça adormecer até o próximo encontro. O próximo cansaço vencido.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CENA FINAL




Um guarda-roupa abarrotado de lembranças: eu preciso escolher entre um sapato, que odeio e aquele que você me sorriu de presente.
Saio descalça com música no ouvido pra preencher as reticências que você deixou. Pensar, hoje, torce o peito. O olhar namorando o chão. E aquele carro quase me atropela, porque me distraí contemplando ontem, quando você me presenteou com aquela mensagem comprida. E penso, enquanto meu pé esquerdo se fere numa pedrinha afiada, que eu gosto quando você me chama pro palco. E como foi frase dura, curta – um tiro e ponto – te ver molhando o indicador com sua saliva e virando nossa página. O meu descer as escadas, olhar a placa de saída – escrita com um erro ortográfico – rodar a chave, te entregar a chave e sumir - a duzentos km por lágrima. Gasolina vazando pelas ruas do seu bairro, como se fossem sementes minhas -  na esperança de me florescerem. Um busto meu manchando a fotografia da sua janela, imagem enjoativa, que te afasta.
Buracos, buracos e mais buracos, ocos. Como minha caixa de mensagens. Como esses dias. Como minha presença.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

HISTÓRIA EMBOLORADA




De um menu, escolho sempre a mesma entrada: esgotar brechas solitárias de uma página a mim confeitada. Um tempero que não abandono: me untar até o último grão de tudo. Garfo palavras, antes de esfriarem. Amasso frases, para que se encaixem no cantinho inferior do papel. Um prato-feito-escrito escorrendo da minha boca. Recheio as bordas dessa página, para te agarrar pelo coração. Molho o indicador e lambuzo a caneta. Dá gastrite desperdiçar o que está bom.

Dessa história que mordi, senti o bolor, já no beiço. Meu encanto azedou. Você murchou, porque esqueci de acrescentar as vírgulas. Espirrei pasta mastigada, mistura brancazul. Minha saliva rejeitando o final de um conto que eu ainda preparava. Minha vontade marinada para outra refeição. A língua queimando de silêncio. Tristeza a la carte.

Errei a mão. Exagerei no açúcar. Ignorei a receita, fiz de olho. Arranquei do forno antes do tempo. Esqueci diálogos na geladeira. As letras apodreceram, de uma linha pra outra. Um ponto final amargou a boca. Reticências depois da barriga cheia. Frases interrompidas fervendo no teclado. Água e sal sobrando no meu rosto – com chorinho. Eu cega à validade das coisas. Eu, nem em banho-maria. Estragada, no lixo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

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Morreu de mãos dadas à saudade. Morreu de orgulho.

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