domingo, 17 de março de 2013

O VESTIDO E O VENTO MALICIOSO DA CIDADE

ou

Ela desce a rua.


foto retirada do site weheartit.com


   Ela desce a rua como se. Não encara o céu. Ignora olhares e quase sempre tropeça. Buzinas. Os semáforos piscam. Os carros escorregam pela avenida que parece viver entupida de estresse. Ela tem um vestido que se espreguiça sempre que um vento assopra. Uma espécie fajuta e romântica e mais colorida de uma Marilyn Monroe vulnerável. A cada esquina, um amor acena. Aquela festa com quatro pessoas e um amasso no elevador vermelho e charmoso. A janela do apartamento em que ele morava, num prédio sem vida, incomodado frequentemente pela cidade acordando, pela cidade se divertindo, pela cidade voltando pra casa acelerada de tanta bebida ou pó, desafiando os radares, os pedestres e a conta bancária magra  e  farta de multas.

   Ela desce a rua como se precisasse chegar a algum lugar. Nunca se perguntou o que quer. Apenas vive. Desliza nos seus dias sem controle.

   Ela desce, o vestido repete a estripulia. As mãos dela, carregando unhas pintadas de azul claro como daquela vez em seu aniversário, vetam o tecido. Ele enfrenta. Provoca. Ordena. O vento como aliado. Ao redor, as pessoas se divertem, apenas uma mendiga se posta indiferente e grita alguns palavrões para si enquanto organiza o seu papelão na porta de uma loja falida.

   Ela não precisa chegar a lugar nenhum. Ela não precisa chegar. Ela só precisa relaxar. Talvez alcance algum lugar assim. E então, como em uma coreografia, seus fios de cabelo, suas mãos e a saia do vestido se libertam. Evaporam. Deixam o vento guiar. 

   Ela desce a rua dançando com o vento malicioso. Aonde pretendem aterrissar?

quinta-feira, 14 de março de 2013

LISTOMANÍACA

Hoje começa uma sessão nova aqui no blog!

As listas. Quem me lembrou que eu sempre quis fazer uma sessão dessas no blog, foi a minha amiga Roberta, e assim como ela, talvez eu precise fazer uma lista pra me lembrar que preciso fazer listas.



Eu sou maníaca por listas. Só fui me dar conta neste ano, durante um curso do Carpinejar. Na hora da apresentação, ele pediu que os alunos falasse, além do nome, uma tara. Eu poderia ter dito beijo na nuca, mas não, confessei a minha loucura por listas. O Carpinejar foi incisivo: Você  não gosta de listas, gosta de se frustar, porque as listas nunca acabam Mas isso é assunto pra outro momento (talvez parta uma próxima lista com as minhas maiores frustrações?).

Eu escrevo listas dos programas que devo baixar na internet, listas dos médicos que tenho de marcar, das peças de roupa que gostaria de comprar e até de quantos parágrafos eu tenho de escrever por dia para finalizar uma coluna pro Casal Sem Vergonha.

Pronto. Já podem rir de mim ou, pra quem é humorada, mandar sugestões de listas pro meu e-mail. Vou adorar receber. (Também faço listas de e-mails que tenho de mandar).

Bem-vindos às minhas neuras.


5 séries de tv que você não pode deixar de ver:

  • Criminal Minds #policial #serialkiller (amor verdadeiro, amor eterno),
  • Once Upon a Time ou Era Uma Vez #drama #contosdefadas (a minha nova menina dos olhos),
  • The Borgias #drama #história (já que o assunto da semana foi o Papa latino, talvez o mais sanguinário),
  • Lei E Ordem SVU #policial #pedofilia (não está no ar por tanto tempo à toa)
  • Dexter #policial #serialkiller (tão bom que torcemos pro vilão sem culpa)



E vocês? Têm séries preferidas?


DIA DA POESIA


terça-feira, 12 de março de 2013

SÓ PODEMOS TORCER PRA UM TIME?


O dia mais confuso da minha vida foi agorinha, essa quarta-feira. Tive o pensamento encaracolado por causa de uma partida de futebol decisiva. Não tão importante para o campeonato, quanto pra mim.

Nasci em Lins, conhece? É uma cidade pequena e quente, do interior de São Paulo, rodeada por outras cidades menores e igualmente quentes. Simpática a minha Lins. Ainda bebê, minúscula mesmo, vim tentar a vida na capital. Me meteram numa fralda do Palmeiras  e enfrentamos, pai, mãe e neném verde, 444 quilômetros de estrada.

Apesar da fralda, eu não era bem uma palmeirense. Quer dizer, meu pai se aproveitou da inexperiência dos meus três meses de vida, para registrar momentos de uma mini torcedora que até hoje não existo. Resultado: Fotografias puxadas pro marrom, com bordinhas arredondadas e a data no cantinho: junho/81, provas irrefutáveis da minha escolha pelo Verdão. Você jogou sujo, pai.

Não tão sujo quanto a minha boca de sorvete, naquela tarde, há muito tempo, quando eu pisei no Gilbertão, o estádio de Lins, minha primeira e única vez num estádio. O vô Tito tinha me comprado um picolé de milho-verde - o meu preferido de pequena - do carrinho que um senhor guiava todas as tardes, tocando uma gaitinha pra direita e pra esquerda. Você se lembra desse som? Pra lá e pra cá. O gramado do campo tinha falhas e não sei muito bem se estávamos lá - eu e meus irmãos - por causa de uma pelada ou de espaço para empinarmos nossas pipas, encharcadas de cerol na linha.

Se for por recordações, por deliciosas recordações, grito Vai Linense! Mas o Palmeiras. O Palmeiras é quase segunda pele, você me entende? Eu olho pro meu álbum de fotos de bebê e me convenço Porco Oô Porco Oô Porco Oô Oô Oô. Fora que eu fico bem de verde. No duro, fico mesmo. Tenho muitos vestidos dessa cor.

Então nessa quarta-feira, uma questão entrou em campo. Lá em Lins, numa noite inevitavelmente abafada, protegidos pelo céu mais limpo que eu conheço, jogadores se esparramavam pelo gramado do Gilbertão: os jogadores da casa, nós linenses, e os jogadores de fora, nós palmeirenses.

Pra quem eu deveria torcer?

Eu não torço, você sabe. Pra nada. Só torço pra um aumento no meu salário. Pro meu cartão de crédito passar na próxima compra. Pra fazer sol no final de semana. Pro meu cabelo não cair com a tintura. Pro novo filme do Woody Allen sair logo. Pequenos prazeres.

Mas caso me sentasse na frente de uma TV sintonizada no jogo, caso tivesse paciência pra assistir a um jogo, como escolher entre o time da cidade que nasci e voltei por anos para comemorar o Natal e a Páscoa e o time, cujo símbolo enfeitou meu primeiro figurino, a fraldinha? Seria como ter uma resposta para aquela pergunta sacana que te fazem no Jardim da Infância: você gosta mais do seu pai ou da sua mãe? Talvez, se eu tivesse uma luz pra essa questão, decidir entre o Linense e o Palmeiras seria menos desgastante. Mesmo que essa escolha só tenha me amargurado por quatro segundos da vida. Os quatro segundos mais enroscados que já conheci. Fico com os dois: meu pai e minha mãe.

Leia a coluna no site do Terceiro Tempo.

Futebol me deixa em coma


Eu tenho um problema sério com futebol. A atenção que dou pra ele é como uma bola num tiro de meta que alguém chuta pra outro bairro. Por isso eu só acordei depois do golaço. Num susto. O meu pai comemorando. Eu não tava dormindo. Eu não tava nem na cama. Eu tava na sala, exatamente como meu pai. Sentada no sofá, exatamente como meu pai. Na frente da televisão, exatamente como meu pai. E como eu consegui perder um gol daqueles? Onde a minha cabeça tava? Como eu driblei uma TV 42 polegadas gritando na minha frente?

Foi gol de quem, pai? Do Fernandão. E o Fernandão seria de qual time? O Fernandão é nosso, Priscila! Ah. Ele riu, porque meu pai passou da fase de me reprovar. Isso acontecia só quando eu tinha seis anos e perguntava se tal palavra era um palavrão. Sempre era.

Não consigo me envolver com um jogo por mais de. Deixa eu pensar. Acho que 15 segundos é o meu limite de dedicação a uma partida. O estranho é que eu sou uma garota bem normal. Quer dizer, eu me acho normal. Costumo tropeçar em mim mesma sempre que olho pra um rapaz do outro lado da rua. Em festas de família, roubo o brigadeiro antes do Parabéns – sem levar impedimento da Tia Dulce. Marco faltas quando danço na pista, onde cigarros e cervejas atacam qualquer um - não é jogo de corpo, é falta de educação das pessoas mesmo e eu revido, já que não existe juiz pra me amarelar ou expulsar.

Minha mãe nunca mencionou eu ter batido a cabeça quando criança ou ter me decepcionado com uma disputa, a ponto de justificar o estado vegetal em que fico no meio de um jogo. É sem querer. Apago. Entro em coma. Sou abduzida por um E.T. de Varginha, que me visita nas tardes de domingo e me leva pro shopping, sei lá. Sou hipnotizada. É isso, o futebol me hipnotiza. Estou na sala, de frente pra TV e de repente vou dormindo, vou dormindo, vou dormindo e aterrisso num lugar diferente e mais gostoso do que o campo. No trânsito de São Paulo, às seis da tarde, por exemplo. Aí, quando me dou conta, o zagueiro já está dançando Ai, Se Eu Te Pego pra torcida.

Será que eu também dormiria num estádio? Confesso nunca ter sentado numa arquibancada para assistir a uma disputa. E não é porque odeio o esporte. É porque não faz a menor diferença na minha vida. Se eu penso em futebol, no segundo seguinte já troco pelo brigadeiro da festinha da Tia Dulce que tá na geladeira, implorando pela minha mordida.

Hoje assisti na TV a um programa de esportes e só me lembro do funk que sonorizou a matéria. Mentira. Também não esqueço a calça que o apresentador usou. Jeans clara. Com isso concluo que, além de futebol, também perco a consciência com programas de futebol. Meu caso é médico. Talvez sofra de Insensibilidade Congênita ao Futebol. Vamos respeitar, por favor.

Esse pode ser o motivo para eu estar solteira e destinada ao sofá numa tarde de domingo pensando no brigadeiro da Tia Dulce. Só pode ser. Meus assuntos não têm testosterona. Sempre ficarei de escanteio numa conversa com rapazes. Precisarei apelar constantemente para o clichê da jogada de cabelo ou alguma frase bonita que li por aí – isso sempre tem um quê de espontâneo e encantador. Estou fadada ao brilho apenas em rodinhas femininas. Ao chuveiro. Estou completamente fora de campo.

Leia a coluna no site do Terceiro Tempo.

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