sábado, 14 de março de 2009

AMIZADE POSTIÇA

 

Foto0269

Os excessos de uma vida noturna deram à luz Itacoatiara. Uma verruga horrível. Alojada na minha bochecha esquerda. Como as das bruxas. Incompetente até para nascer na ponta do meu nariz! E me disseram ontem que eu poderia ter sido queimada viva antigamente. Tudo porque a madame se instalou em local exposto. Eu, bruxa? Eu voando vassoura lua cheia? Eu gritando. Eu ardendo. Meus trapos virando cinzas em praça pública. Quem dera! No meu caldeirão patinhas de aranha, asas de morcego e vingança. Uma pitada de noz-moscada que a me mi piacce. Alguém prova? Sei que a Itacoatiara, apesar de horrenda, fez sucesso. Por causa dela, ganhei poemas de amor, convites para um musical e um suco de laranja na cara - eu juro que não estava olhando pro namorado daquela menina chatinha! Mas há três semanas essa verruga-mala só me incomoda. Mais nada. Há três semanas. Desde que desabusei da noite - dias seguintes mudos e taquicardíacos. Tivemos uma conversa sóbria e definitiva. Itacoatara e eu. Percebi: não é flor que se cheire. É verruga fedida e amarga. Ela insistiu em ficar. Eu proibi. Não dá, minha filha. É o meu rostinho lindo o prejudicado na história. Conheço ele desde pequeno. Desde que ele assustava os garotos no ginásio. Nada feito! Fora, Itacoatiara! Depois de tantos olhos repugnando-se com as formas grotescas dela - inclusive o meu, diante do espelho. Eu poderia tirar uma foto assim ou assado, mas essa verruga... - a maldita se foi. Deu pena. Ela foi sem querer. Foi sem querer! Esbarrei a mão esquerda ao lavar meu rosto e quando vi, a desagradável viajava pelo ralo da pia do banheiro. Açúcar para estancar o sangue. Que as baratas não sintam o cheiro! Adeus, minha querida coisinha feia. Deixe o meu rostinho lindo desabitado da sua companhia inútil. É claro que depois da partida dela, nunca mais recebi os poemas. Mas não tem problema. Amanhã compro um lápis de olho cor marrom e reproduzo Itacoatiara. Uma verruga falsa colada na minha cara de poucos amigos. E quando não me servir mais, passo o demaquilante e bebo uma Coca.

sexta-feira, 6 de março de 2009

PARECIA DE AQUARELA

 

O insetinho queimando dentro do lustre. Um barulho a menos para desconcentrá-lo. De quê? Há horas olha para o quadro da irmã morta. Lembra-se do vestidinho lilás da foto. Foi a mãe quem lhe deu em um aniversário. Ela odiava as mangas bufantes. Reclamava Mãe, elas pinicam o meu queixo! Mães de pequenas princesas não ouvem. Mães de miniladies só enxergam e vangloriam-se. A menina mais linda do prédio! Como se a franja bem cortada e o cabelo louro – natural sim senhora, a mãe ofendia-se – fossem medalhas de honra ao mérito. As perninhas brancas ainda lisas, lisas. O seio vazio sufocado no tecido. Como seria se ela ainda estivesse aqui? Dormindo no quarto ao lado. Ainda pode ouvir sua respiração. Ainda escuta o choro dela de vez em quando. Esta noite não. Esta noite se lembra do olhar vago que ela tinha. Sempre deslizando anônima pela casa. Sua beleza empanada por alguma coisa que aos sete ainda não se sabe explicar. Ele mesmo, hoje com seus vinte e três, é incapaz de definir sentimento. Raiva, ciúme, alegria e ponto. Ela gostava de brincar com o bercinho desocupado. Nana nenê que a Cuca vem pegar. Uma vez roubou o canivete dele. O canivete virou boneca dormindo no bercinho. Nana nenê. A mãe não fala dela. Nunca falou. No velório, não quis abraços. Dizia Não se preocupem comigo. Não olhou na cara dele. No velório, ficou segurando as mãos dela. Fria. Pálida. Pequena. Mãos de miss de tão macias. Não deixou ninguém chegar perto. Ele sentado na cama continua olhando o quadro. Chora desespero, chora ausência. Enxuga as lágrimas e abre a primeira gaveta da cômoda. Escondida entre as roupas íntimas dele, a calcinha de rendinhas verde. Aproxima-a do rosto e chora amor, chora desejo. Goza saudade.

 

domingo, 1 de março de 2009

QUER OUVIR?

Tinha um show pra ir. Bacana. Falar bacana voltou a ser brega? Desde quando? Tinha esse show. De uma cantora que usa saias de fada. Usa saias de fada e fala palavrões quando o guitarrista sola. Eu gosto. Já subi no palco e dancei entre as pernas dela. Ela lambeu meu rosto. Imagina, é cena. A saliva dela é quente e deixa cheiro de camomila. Existe pasta de dente sabor camomila? Existe dente estressado? Deve ser de gente que tem bruxismo. Não. Não fui ao show. Claro que não! Afinal estou aqui começo de madrugada te ligando. Poderia ter ido, né? Deveria? Não quis. O lugar é muito cheio. Escuro também. A música estaria alta. Hoje eu só queria ouvir pessoas. Qualquer merda que quisessem me falar sobre um assunto de minha escolha. Eu também sei escoher, sabia? Lógico que não! Ninguém me falou nada. Meu telefone também não tocou. Ele tem tocado pouco. Sabe o que eu fiz? Apaguei todos os números da agenda. Não é bobagem. Sei de cor o telefone de quem importa. O resto ali só ocupava espaço e me fazia sentir popular. Puxa, quanta gente eu conheço. Sabe, que nem aquele povo que tem mil amigos no orkut? Adiciona até o frentista que enche o tanque toda manhã atrasada de segunda-feira. Quanta gente eu conheço... Posso contar nos dedos de uma mão com quantas eu já tive conversas significantes e quantas delas só querem se fazer gente em uma conversa. Não ligam pro que você é, nem pro que tem a dizer, suas dúvidas, angústias. Eu tenho que ficar lá fingindo interesse na vida delas. Pra não ser desagradável. Só estão preocupadas em contar e contar e contar . Eu, eu, eu! E quando conseguem de você o que querem, o celular nunca mais toca. Então apaguei. Apaguei logo a agenda toda. De A a Z pra não cair na tolice de mensagenzinhas ébrias de fins de noite. Daquelas que você, quando acorda, pergunta se sonhou ou aconteceu mesmo. E sempre aconteceu. Você não sonha que está beijando o seu amigo que não sai do seu pé e vive implorando por uma noite ao seu lado. O coitado se humilha tanto como você no momento das mensagenzinhas. Humilhante. Nunca retornam. O objetivo foi cumprido. E você pára. Mas também só dura uma semana. Até você beber de novo e acordar pensando se o vômito e o tapa na cara de um fulano de quem você está com raiva eram reais. Eram? Fala que dessa vez não, por favor. É lógico que eram! Tem vômito na sua bota! O dia amanhece amargo. E uma vontade de ficar sozinha acompanha a cara péssima borrada com rímel. E por que eu não fico? Por que não tranco a porta do quarto e coloco um samba bem melancólico e deixo a tristeza vazar? Marcando um caminho negro em meu rosto. Caindo. Caindo. Caindo... Por que eu não vou ao cinema ver um filme que acabe comigo? Mais um pouco. Só pra saber que existem pessoas em piores situações - mesmo que de mentirinha. Por que não vou pra uma igreja rezar? É. Confessar. Entrar naquela cabine, inventar um monte de pecado e colocar a dor - única verdade - no meio deles. Quantas Ave Marias são necessárias para que se perdoe um amor? Deus perdoa a força de um sentimento que deveria ter morrido há tanto tempo? Se eu acendesse treze velas de sete dias e pedisse para esse encosto não me tocar delicado nem olhar para dentro de mim - sua vaidade sugando meu coração - eu estaria livre? Não fui ao show. Quer saber? Eu ia. Ia sim. Eu pensei que estar muda incentivasse conversas. Mas não. Ninguém falou comigo. Ninguém me falou nada. No show eu não precisaria falar. Só dançar e quem sabe receber um beijo pra calar a minha mudez. Depois de um beijo não há como não sorrir alguma coisa. E o sorriso é voz. O sorriso depois de um beijo é a voz de uma felicidadezinha. O sorriso diz obrigada à pessoa e cochicha no seu ouvido tá vendo? u still rock girl! - mesmo que depois a insegurança agarre suas orelhas e grite é só uma noite! e você diz que anota o telefone dele. Mentira. E se convence é só uma noite... Tem quem me queira só por uma noite. A maioria quer. A maioria quer todo mundo só por uma noite. Não "pelo menos" por uma noite. "Só" por uma noite. E então a dúvida: render-se ao jogo ou não se trair? Eu juro que queria enxergar esse assunto com mais leveza. Claro que eu juro. Você não acredita em mim? Pois é, eu sei. Não consigo. Deus me perdoa? O Deus de hoje eu tô falando. Esse aí que usa internet e aceita divórcio e camisinha. Ele perdoa esse meu sentimento que persiste? O fato de eu não ter amores efêmeros? Ele fala de amor próprio? Você sabia que eu acho ridícula essa história de amor próprio? Sabia, né? Eu tô ficando repetitiva, eu sei. Mas não dá pra exigir amor próprio no meio de uma paixão. A pessoa não sabe nem distinguir quando tá sendo inconveniente, imagine ter noção de amor próprio. Parece expressão de auto-ajuda, né? E por que Deus não libera mais algumas coisinhas pra gente? Tipo aquele mandamento de Não Matarás o Próximo. Quando a coisa deixa de existir a gente vai esquecendo. Esquecendo. Esquecendo... Eu não lembro mais da melhor amiga da oitava série. Tão importante. Não, ela não morreu. Mudou com a família pro interior de Goiás. A gente se correspondeu por cartas algumas vezes. Depois foi ficando chato. Ela não fazia mais parte da minha vida. Pra que contar coisas pra estranhos? Foi o que pensei em fazer hoje. Uma espécie de redenção? Mas a pessoa tem de ser estranha a você mesmo. Daquelas que você encontra na rua e despeja todos os problemas, como fazem os ex-habitantes egocêntricos da agenda do seu celular, que não te escutam. Um dia eu fiz isso, sabia? Eu tava triste. E todo mundo começou a perceber. Achei melhor sair de perto e fui pra dentro do carro. Eu tinha visto esse cara de longe, me deu passagem quando passei esmurrando o chão com o meu tênis. Ele continuou me olhando no carro. Que paciente, pensei. Ou psicopata? Depois de desabafar tudo o que eu tinha pra minha solidão, arrumei o cabelo e fui pra rua de novo. E não é que o rapaz veio conversar comigo? Num papo de que nunca traiu a namorada. O que será que ele tava querendo, heim? Como passei a odiar gente que apela pro perfil de bom moço, levantei e deixei ele lá falando de casamento e filhos. Mas antes fiz ele ouvir o motivo do minha decepção. Um massacre! Gente ingênua merece um pouco de zombaria. Te juro. Ficou sentado na sarjeta com ar de bobo. Eu falo, essa minha carinha de boazinha confunde mesmo. Mas eu gosto, sabia? No fundo devo gostar. É dúbio. Ninguém sabe o que você pensa. Até você se apaixonar - e ainda bem que isso é raro - e perder o controle de tudo. Nossa, como tá tarde. Acho que agora me deu sono e quero desligar. Oi? Se eu apaguei seu telefone? Sim. Te disse que apaguei de todo mundo. É que eu tinha anotado a caneta em algum lugar. No envelope da minha conta de celular. Veio alta. É isso mesmo. Você é do grupo que eu não sei o número. Daqueles que só sabem falar de si mesmos. Já me sinto vingada. Obrigada. Boa noite.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

MENINOS!

Era o menino mais bonito do colégio. Tinha uma cicatriz no rosto, na altura da maçã esquerda, e os olhos de peixe morto. Era artilheiro do campeonato de futebol e beijava a camiseta com grosseria e catarro a cada gol marcado. Corintiano. Na sala de aula, sentava-se nas carteiras do fundo e tirava notas baixas em Estudos Sociais. Faziam camisetas com a foto dele e colocavam-se inimigas e próximas na arquibancada. Ele agradecia a atenção descarada com carrinhos, faltas, palavrões e gols. Tantos gols que alguns o detestavam. O restante o amava. Vez ou outra, durante o gozo da vitória, mandava um beijo no ar para as torcedoras. Apenas um. Que o fisgasse, como uma boa goleira, e guardasse debaixo da blusa entre o seio e o sutiã, qualquer uma - ou a mais disponível. No dia seguinte um bate-boca vazava do banheiro até o corredor das salas de aula. O beijo é meu! Não, foi pra mim! Não se engane, ele já me confessou. Em meus sonhos... Nunca revelou o nome das destinatárias. Aos nove anos, era rei. A última palavra era dele. Queremos show de música, em vez de teatro. Cuidaremos da barraca do coelho na Festa Junina. Foi o bedel! Amanhã não venho. Os professores e até a diretora sabiam o seu nome.

Alice se encantava com tanta popularidade. Alice. Míope. Quatro graus no direito. Cinco no esquerdo. Alice dez em matemática. Fileira da parede, mesa um. Alice morrendo de vontade de pentear o cabelo da professora junto com as outras meninas. Alice desenhada na lousa da sala. Nariz e aparelho de dentes exagerados. Alice poucos amigos. Alice virgem de lábios, de mãos e de despertar paixões. Mas meiga. Sua meiguice acreditou nele durante o recreio cheio de alunos barulhentos no Pátio da Figueira:

- Alice!

O sangue dela tremeu. O menino mais bonito do colégio sabia o seu nome. Quieta, quente e com dificuldade para respirar, olhou para ele em destaque rodeado por seus seguidores.

- Alice, você tem telefone?

Ele ligaria à noite? Confessaria que o destino de seus beijos voadores é o rosto dela? Poderia ensinar matemática para ele toda quarta-feira depois das aulas e a mãe lhes seviria leite com achocolatado e bolachas. As meninas morreriam de inveja. Todas. Principalmente aquelas irmãs vindas do interior. Lindas, mas tolas. Talvez ele gostasse de garotas diferentes da maioria das meninas do colégio. Umas chatas. Garotas como Alice. Que não usam brincos e não menstruam. Que esmagam folhas secas e sonhos entre as páginas de seus diários. Até aquele dia não se lembrava de ter ouvido o seu nome preencher a boca de alguém do colégio. Mesmo os profesores o trocavam com frequencia irritante por Aline. Entusiasmada com a idéia de alguém achá-la especial, sorriu. A luz do sol trombou com o aparelho fixo - enfeitado com elásticos amarelinhos - e metralhou reflexos, cegando a platéia que prestigiava o primeiro flerte dela. Misturados a ansiedade, dentes, metal e luz, números:

- Dois nove oito vinte e três...

Foi interrompida por:

- Então vende e faz uma plástica!

e risadas. Alguns da platéia caindo no chão, pondo-se mais ridículos do que ela. Dedos apontando Alice. Ela escondendo a vergonha na cabine de um banheiro pichado. Alice tomando falta na aula depois do recreio. A raiva arranhando seus pulsos. O futuro de Alice sangrando. O futuro de Alice sem aparelhos celulares.

     

sábado, 14 de fevereiro de 2009

DEIXANDO A INDIFERENÇA MAIS BONITA

 

se um poema ainda não nasceu é porque está indiferente. e jura: não achou que fosse possível. justo ela que aproveita-se do choro atrevido, que explode em uma calçada no caminho de volta para casa, para desabafar a pedaços de papel. ela que gosta da condição de não pertencer a nada e nada ter que a pertença. que anseia justamente pelo que nunca será seu, apenas para continuar tomando vento pelas madrugadas sem avisos, relatórios e manifestos conjugais. ela vai dormir esta noite ironizando o fato de que acordar ao lado de um estranho é menos estranho que acordar ao lado de Ñy&ll.  e pensará se ele já desejou presenciar os olhos de Üb@ revelando o tom verde em uma dessas manhãs cheirando a álcool, cigarro e ego. não vai dormir. mais uma vez. como tem acontecido sempre que se compara a outros objetos tão parcialmente disponíveis quanto ela mesma. vai se emocionar diante de qualquer jorro de ignorância estampada em uma TV de tardinha. um grito de socorro de seu próprio corpo, que ela vai ignorar. talvez questione  o porquê disso tudo para as paredes de um quarto silencioso e seu. mas escrever não vai. escolherá fechar os olhos e cantar uma música alegre para mascarar a decepção que não a surpreendeu tanto quanto não amá-lo mais. e jura novamente: não achei que fosse possível. 

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...