O que sei desses tempos? Não os encomendei. Não os aceitei. Não os compreendo. Nem em gestos irresponsáveis sugeri que se aproximassem. Que fiz eu? Agora se enrolam em mim. Transformaram-me em estátua. Taparam-me as narinas. Meus bruscos escapes não ornam com mais nada. Escorrego delicada e lentamente. Outros tempos. Uma seda deslizando em um abraço noturno. Visando um dia o chão e pés. Lágrimas manchando sapatos, implorando centavos. Romântica e estúpida mania. Focos desviados durante interesses ditos. Que quero eu? Uma porta calada, sua chave esquecida. Que pretendo agora?
Evaporar...
sexta-feira, 10 de julho de 2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
ALICE
Aquela padaria me lembra Alice. Não porque já estivemos juntas lá. Nem porque ela me segredou que o pingado deles é o melhor da cidade. Mas por causa de um rapaz que expôs para a pessoa ao lado que se lembrava de Alice sempre que passava por aquela padaria. Estava na minha frente na fila do teatro. Quem falava de Alice? Da minha Alice. A que presente ela pertence, do qual agora me exclui? Senti ciúme e desde então troco a rua e o semáforo pela padaria quando passo por ela. Alice pode estar lá. Me apropriei da memória de um estranho. Fiz a relação dele com Alice tornar-se minha também. Por quê? Se o que tínhamos era tão mais profundo que a imagem dela sentada num balcão tomando refrigerante ou pagando a conta com seu cartão de crédito? Eu pensava em Alice quando ouvia uma música dos Beatles na rádio. Eu pensava em Alice quando me perdia em seu bairro por causa de entrevistas fracassadas de emprego. Ou mesmo quando, sem querer, abria o guia de ruas em alguma página da Bela Vista. Às vezes colocava o vinil de qualquer um - Pavarotti, Caetano, Aretha – só pra ouvir o chiadinho debaixo de suas vozes. O chiadinho hipnótico aos olhos profundos e escorregadios de Alice. Decorei um parágrafo inteiro de seu segundo romance e, meio bêbada, meio impulsiva, recitei para ela no meio de uma festa. Alice não se lembrava de ter escrito nada do que naquele momento ouvia junto com a música. Talvez não fosse mais a dona daquele desabafo. Quando você voltar, eu vou arremessar no seu cinismo todas as flores que ganhei. Você vai espanar as pétalas que escorreram para o ombro e partir. Quando estiver a cinco passos de mim, vou cantar aquela música que você não decora. Você vai voltar e provar que prestava atenção quando eu te ensinava. Eu vou ouvir, séria. Vai me olhar com a mesma expressão de quando leva bronca, pegar a rosa mais despetalada do chão e entregá-la a outra, como você sempre faz. Eu vou desligar a sua cena e tomar o copo de cerveja para não mostrar que minhas mãos tremem. Vou esperar no balcão alguém com um ramalhete. E quando você voltar eu vou atirar mais flores na sua cara e depois que você cantar pra mim, eu volto pra você. Você sabe. Eu volto. Ela me disse Não sou eu. Mas essa ideia de Alice ainda me toma. A padaria da qual o rapaz se referiu é só uma tentativa de não tirar Alice das minhas páginas em branco. Mas ela costuma evaporar sempre que me aproximo. Um avanço obrigatório ao fim do seu livro. Páginas virando sem o meu consentimento. A vontade de se tornar mais uma de minhas lembranças. A lembrança de uma padaria. A lembrança de um nome. Alice.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
BIG BLOGGER
Engraçada essa coisa de blog. Alguns, tenho a impressão, de que escrevem pra si mesmos - o que pra mim é a única razão da escrita: eu mesma. É que post sem comentário... Não dá vontade de colocar aquele barulhinho de grilo? Parece que ninguém lê. Mas é mentira. O público existe, meus amigos. Só é meio fantasma. Nossos blogs são como um quarto em que há uma pessoa trocando de roupa. A fechadura está lá. Quem não tem vontade de dar uma espiadinha? Afinal, se a minha toalha tá caindo, é porque quero que vejam. E quem é você pra não presenciar o momento em que ela toca o chão?
quarta-feira, 17 de junho de 2009
LÁ DENTRO
continua a mesma coisa: as portas se trancaram com força e uma massa tapou qualquer frestinha que pudesse soprar notícias das últimas explosões internas. Lá fora, a lâmpada esquenta o rosto pálido de Alice e ela comtempla o chão quadriculado da sala. Por alguns minutos. Depois se levanta e coloca a água do chá para ferver. Até ferver. Até sufocar o fogo. E dorme na cozinha. À espera das portas e janelas cederem.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
UM BEIJO EM REDE NACIONAL
É a avó da minha amiga Cristiana. Passa as tardes com a bunda fincada na poltrona e os olhos na televisão esperando dar a hora do programa de astrologia. Dona Julieta é fã do apresentador, não sei se por causa do queixo grande - igual ao do falecido marido - ou do sorriso de bom moço. Arrisco dizer que é paixão. Dona Julieta olha para a tela como eu, quando via a Alicia Silverstone nos videoclipes da MTV nos anos noventa.
Formei-me jornalista com o sonho de escrever para algum caderno de cultura, porém contas a pagar só combinam com os sonhos da hora de dormir. Quando Cristiana revelou à família que eu trabalhava no mesmo programa de astrologia, sua avó não se interessou em saber se o apresentador era realmente astrólogo, nem se era o próprio quem escrevia - de segunda a sexta, horário comercial - tudo o que os astros reservam aos signos do zodíaco.
Se me permitem confessar sem que suas ilusões, meus leitores, desfaçam-se com violência, eu sou o responsável pelo que acontece a cada um de vocês no amor, na carreira, na saúde e no sexo. Sei de cor o cruzamento dos signos e aconselho de antemão: piscianos, corram da cama dos sagitarianos!
No meio do almoço em que serviu coelho com alecrim, sua receita que mais detesto, dona Julieta me pediu:
- O Fernando Garcia poderia mandar um beijo pra mim?
Tocou a minha mão. Há uma certa doçura nesse tipo de desejo. Um beijo em rede nacional. Prometi, sem que o gosto seco da coxa do coelho e a aversão de Fernando Garcia a agradar fãs com beijinhos para as câmeras interferissem no compromisso que eu acabava de assumir.
Acho Fernando Garcia um homem cinza. Sempre tenho a impressão que as pessoas secam quando ele passa. Mesmo assim, decidi brigar pelo beijo de Dona Julieta. Ele fingiria não me ouvir e eu voltaria para casa satisfeito. Pelo menos tentei.
Aproveitei a terça-feira em que ganhei um bom dia de Fernando Garcia. Trabalhei a respiração, levantei-me da cadeira e andei em direção a ele, que olhou para dentro de mim. Sua expressão secou minhas mãos suadas de nervoso e a saliva da minha língua, que já implorava pelo gosto do coelho com alecrim de Dona Julieta. Desviei de Fernando Garcia e fui para a cozinha pegar um copo de água.
Formei-me jornalista com o sonho de escrever para algum caderno de cultura, porém contas a pagar só combinam com os sonhos da hora de dormir. Quando Cristiana revelou à família que eu trabalhava no mesmo programa de astrologia, sua avó não se interessou em saber se o apresentador era realmente astrólogo, nem se era o próprio quem escrevia - de segunda a sexta, horário comercial - tudo o que os astros reservam aos signos do zodíaco.
Se me permitem confessar sem que suas ilusões, meus leitores, desfaçam-se com violência, eu sou o responsável pelo que acontece a cada um de vocês no amor, na carreira, na saúde e no sexo. Sei de cor o cruzamento dos signos e aconselho de antemão: piscianos, corram da cama dos sagitarianos!
No meio do almoço em que serviu coelho com alecrim, sua receita que mais detesto, dona Julieta me pediu:
- O Fernando Garcia poderia mandar um beijo pra mim?
Tocou a minha mão. Há uma certa doçura nesse tipo de desejo. Um beijo em rede nacional. Prometi, sem que o gosto seco da coxa do coelho e a aversão de Fernando Garcia a agradar fãs com beijinhos para as câmeras interferissem no compromisso que eu acabava de assumir.
Acho Fernando Garcia um homem cinza. Sempre tenho a impressão que as pessoas secam quando ele passa. Mesmo assim, decidi brigar pelo beijo de Dona Julieta. Ele fingiria não me ouvir e eu voltaria para casa satisfeito. Pelo menos tentei.
Aproveitei a terça-feira em que ganhei um bom dia de Fernando Garcia. Trabalhei a respiração, levantei-me da cadeira e andei em direção a ele, que olhou para dentro de mim. Sua expressão secou minhas mãos suadas de nervoso e a saliva da minha língua, que já implorava pelo gosto do coelho com alecrim de Dona Julieta. Desviei de Fernando Garcia e fui para a cozinha pegar um copo de água.
* CONTO QUE ESCREVI PRO SITE GUIA DA SEMANA
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