terça-feira, 19 de junho de 2012

PRA ENTENDER O QUE SE ESCREVE


Se eu usasse a experiência para arrecadar palavras e, no dia seguinte, a cabeça para encaixá-las em frestas carentes de significados; eu precisaria de suor para checar se cada constelação de frases transborda exatamente o que quero cuspir; e depois esfregaria os exageros, cortaria os perdigotos que ejaculam da língua – o que tem de ficar amordaçado no armário ou esmagado no tapete ou acorrentado na gaveta. O que não precisa ser entendido.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

TERRAÇO



A bunda dela na borda da sacada. Lá embaixo, faróis vermelhos correndo e buzinando, postes de luz, risadas ébrias. A noite festeja, enrolada pelo vento do outono. As pessoas caindo nos truques que a noite inventa. Botas pesadas surrando bitucas de cigarro e chiclete. O barulho não alcança os dois. A bunda dela gelando dentro do jeans. O jeans esfregando sujeira. Ele e uma cerveja na mão. O que é cumplicidade, se não for isso? Dá pra falar com o silêncio e mais um gole de Heineken. Dá pra falar com os olhos voltados lá pra baixo, quase iluminando o movimento das ruas. Ela cospe para ver se a saliva seca antes de atingir a cabeça de alguém. Impossível descobrir. Ele dá mais um gole. O que precisa ser dito nunca será. Ficará nesse instante. Impresso numa lacuna de tempo. Talvez nunca mais se lembrem dessa noite e do medo que ronda. Ela olha para a Heineken. Ela gruda o sapato no chão. Ela desiste.

sábado, 14 de abril de 2012

MÚSICA ÚMIDA


Das vezes que chorei por causa de uma música, a tarde mais marcante foi aquela de Lins. O calor que fazia debaixo do céu e o sorveteiro aliviando. Ver televisão na frente do ventilador, pra não grudar no sofá de couro, ainda perturbada pela história da conhecida, que encontramos no centro da cidade e descrevia como o seu marido tinha cegado, porque chegou perto demais das hélices do ventilador. Eu pensei que ele chorava e, com vergonha de que a mulher descobrisse, ao secar suas lágrimas com o vento artificial, que deixa a voz vibrando, se aproximou do ventilador mais do que o preciso.

Nas férias, eu visitava os avós no interior. Toda a família visitava. Nós, os sobrinhos, dormíamos no quarto desocupado por camas, mas que tinha sofá e vitrola. A gente se amontoava em colchonetes fininhos e almofadas duras serviam de travesseiro. A tia Dina dormia com a gente como se fosse bedel e me ensinou uma oração que sei até hoje. Quando a luz se apagava, a única coisa que não se escondia no breu era um vaga-lume vermelho perto da tia, que depois de sete minutos sempre morria, levando com ele o cheiro esquisito de fumaça. Nesse quarto, naquela tarde, foi para onde escapei, deixando minha família na sala. Sempre fui de me trancar, é quando as confusões primeiro escorrem, pra depois se assentarem.

Eu sou da época dos discos. O primeiro que ganhei foi o de uma banda nacional de garotinhos, dessas que apareciam na televisão para cantar e tocar com os instrumentos sem fio. Embaixo da vitrola, uns discos que nem me lembro mais, com exceção desse que escolhi. A música se apresentava na última faixa do lado B e eu me levantava do sofá, grudento e salgado, sempre que acabava, para repetir. Falava sobre querer alguém que foi embora e não voltaria mais. Era só uma música. Eu só tinha seis anos, o que eu sabia de amor? Eu só tinha seis anos e, naquele dia, aprendi da vida. Foi só um grão. A música me contou como as histórias poderiam ser. Como eu poderia escolher me sentir. Só porque alguém se sentou e escreveu, em vez de usar um ventilador pra disfarçar sua tristeza.

segunda-feira, 26 de março de 2012

MANHÃS ABSTINENTES



a madrugada é triste. a madrugada é sempre triste quando você dorme. ou quando escolhe outro lugar, diferente do meu pescoço. se não existe a sua voz alagando a madrugada, ela não ganha um bafinho de cor. quando o seu sorriso é estrangulado, pra que serve o foco da lua?

de dentro do carro eu posso escutar você interpretando em todos os tons aquela palavra que raramente fala. e desconfiar de você a cada vulto que atravessa debaixo do semáforo, espionado pelos faróis. às vezes tenho vontade de te atropelar. me entristecer pela sua morte e não pela sua ausência.

eu abandono a madrugada, quando cinco horas de álcool decidem destrancar o que os dias claros e quentinhos reprimem. o que a distância tranca. as facas que tiro do peito. quando é manhã eu nunca lembro que você já fez parte.

Larguei as madrugadas pra você desaparecer. Consegui evitá-las, até que. Até que essa crise. Uma crise, um impulso, um chame-do-que-quiser. é tipo fissura de me esgotar nelas como antes. ou me esgotar em você. não sei qual desejo amanhece primeiro. parece que me estampo nessa  história, quando fica insuportável me evitar. por isso arremessei nossas madrugadas, migalhas de alegria. presas à uma pedra, talvez sufocadas de água e de minha invisibilidade, sua incontestável criação.

é inquieto. é surdo. eu meto a lembrança de como é a tua pele junto tênis e sabonete. é incontrolável e curto o momento em que penso em você pela primeira vez depois de, e o momento até a porta da sua casa. é quase sonho. é quase porre. é quase um coma. é quase morte. a minha.

eu. piscando. cada poro. minhas palavras em alto-falantes. estardalhaços do que vaza. e você.

cego eterno.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

ARRANHÃO NO MEIO DA NOITE


foi água que me acordou nessa manhã. não a chuva. não uma torneira aberta. não o mijo no colchão e nas pernas. era água salgada - mais do que a água do mar - se esfregando naquele lugarzinho onde a gente colore com lápis de olho. que droga. eu acordo e vejo o meu quarto embaçado, tudo por causa de um sonho.

você já amou alguma coisa? eu não tô falando desse gato cego que você maltrata com leite e o seu chinelo rude.  você já encurralou o rosto desse bicho com as suas mãos, porque dizer Eu te amo era muito pouco? porque sorrir pra ele era muito pouco? E como ele reagiu? com aquela cara de Senhora, eu sou só um gato de rua, você não pode me.

mas é que no meu sonho ele segurou a minha mão. você já viu isso? não, eu não tô falando do seu gato. ele segurou a minha mão e entramos na festa, siameses. eu me sentei no colo dele. ele usa calça jeans clara de noite também. eu me sentei em cima da calça jeans clara dele e agarrei o seu pescoço como se fosse a única coisa que eu precisasse. e beijei a boca dele como se fosse. você sabe. ele tem um rasguinho no lábio inferior, que eu gosto de morder quando estou sonhando. Eu espremi as bochechas dele com as palmas das minhas mãos e disse, sem ligar pras pessoas que lamentavam a minha cena, eu disse Eu te amo. e repeti. e repeti. e repeti durante a festa inteira. ele me olhava com aquela cara de Você me conhece demais pra fazer isso. mas eu amo, porra. e sou eu que está aqui em cima da sua calça jeans clara essa noite. e eu tenho medo de amanhã. mas dessa vez eu sei que é diferente. porque amanhã você também vai precisar de como eu te olho. e de como os meus braços te cercam nessa festa. e do amor que ninguém te declara todos os dias.

e então escancarei os olhos e vi meu quarto em blur. o ventilador rodava e tinha os meus diários, travesseiros, sutiãs, batons e o meu chinelo que ele não sabe nem de que cor prefiro. o livro que eu ganhei de um cara, porque ele gostava de mim. mas que eu não deixei que me cercasse do jeito que eu faço com ele quando sonho. meu sonho. o nosso único lugar.

e desse sonho - mais do que as luzes coloridas da festa violando a cara dele, a calça jeans clara, as mãos dadas, as minhas palmas apaixonadas - se destaca expressão dele. como se triste pelo que eu repetia e repetia e repetia. eu te conheço demais, é verdade.

por isso as gotas de mar. e sonho.

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