terça-feira, 4 de março de 2008

BLUSH VERMELHO-GOIABA

Foi a única que enrubesceu na apresentação. Esperou tensa a indiazinha perua dizer por que queria o estágio. Enquanto isso sua língua secou e as pernas começaram a tremer de um jeito engraçado que a forçava a mexê-las o tempo todo para disfarçar o nervosismo. Lembrou do teste de direção para tirar a carta de motorista. Deixou o carro morrer por não conseguir manter o pé esquerdo firme na embreagem. O descontrole era tanto que seu joelho batia na direção. Na sua vez de falar, a timidez não se escondeu. Alguns apostavam que ela havia passado blush no rosto inteiro. Se ela soubesse, retrucaria “Jamais! Eu não uso blush vermelho-goiaba, mas rosado médio, porque dá um visual queimado de praia”. Começou dizendo o nome. O som do “s” não saiu como gostaria. Sua voz também. Não se concentrou para deixá-la mais grave e o que a sala inteira pôde ouvir foi uma menininha de vinte anos insegura, despreparada e burra. Alguém deve ter pensado em mandá-la de volta às compras no shopping. Outro deve ter olhado constrangido para cima com o intuito de se desligar do que ouvia, tamanha a vergonha que sentiu por ela. Enquanto falava suas bobagens, desejava ter escrito tudo na lousa branca para quem quisesse ler e saber quem ela era realmente. Alguém além daquele nome dito de maneira fraca e com problemas na dicção. Alguém além da máscara de timidez. Alguém capaz de conversar com mais gente além dela refletida no espelho do quarto. Finalizou confessando nunca ter lido Borges e só voltou à estabilidade cinco pessoas apresentadas depois.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

APAGÃO



De estômago vazio, bebeu uísque, champanhe, caipirinha e um gole de Red Bull. Desembestou a falar com todo mundo na boate.

Deu sorte de encontrá-lo. Usava camisa. Conversaram a noite inteira sobre música, cinema indie e a Chapada dos Veadeiros.

No dia seguinte, ela teve dor de cabeça. Ele, boas lembranças. Tão boas que ficou com medo de ter anotado o celular errado.

“Quem é esse cara?”

Ela não se lembrava. Combinou um encontro às escuras.

Ele podia ser careca, barrigudo e zarolho. Podia ser grudento e falar cuspindo. Ele podia ser cheio de manias ou ser bobinho demais. Mas não era.

Um mês e meio depois, em uma tarde, tomando chá com a avó, teve de responder à pergunta:

- E aí, filha, já beijou?

“Claro! Beijei no primeiro dia!”

A avó jamais imaginou que as relações moderninhas de hoje em dia pudessem dar tão certo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

UM GRANULADO



Um pão de mel depois, ela ficou mais feliz.
Você foi trocado por uma massaroca de farinha, ovos, fermento e Nescau recheada com doce de leite.
Fodam-se os quilos a mais.
O arrependimento veio em dez minutos.
Ela não precisava de tanto chocolate.
Porque nunca precisou tanto de você.
Um granulado bastaria para te substituir.
Então voltou atrás.
Foi ao banheiro, enfiou o dedo na garganta e tirou você da vida dela pra sempre.
Antes de dar a descarga, abriu o gloss e despejou o líquido em cima.
- Não se esqueça do meu gosto.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

NECESSIDADE DE ROMANCE

(Coluna para o site Guia da Semana)

 

Voltei insatisfeita do meu final de semana, que não foi preenchido com um único filme, ou mesmo um seriado. Pois é, perdi a reprise dos capítulos de “American Idol”. Choro com as histórias tristes e me arrepio com uma boa voz feminina. Esperar por “Grey’s Anatomy”, uma das séries mais românticas do momento, seria insano. Dez da noite, não mesmo! Eu queria naquele momento. Vou tentar esquecer aquele hospital e comprar a caixa com todos os episódios no final da temporada. Assim resolvo todos os meus problemas. É isso! Paro de assinar a TV a Cabo, assim me livro das (até) oito horas diárias em frente à televisão, conseqüentemente economizo os R$ 79,99, guardo no meu porquinho e no final do ano compro todas as temporadas dos futuros clássicos da TV Americana! Lorelai e Rory Gilmore estão na lista.

Fui me consolar no teatro. Precisava de emoção. A peça era infantil. Como tudo estava valendo, chorei logo que li o texto do programa. A peça era linda. Tinha romance! Mas era “criança” demais para os meus planos.

De repente um “insight”. Alguma voz ou a “Nanda” soprou no meu ouvido de onde vinha a minha repentina necessidade de romance. Por que me veio a vontade de escrever um texto com o título “Necessidade de Romance”. Tudo aconteceu de manhã quando ouvi as palavrinhas mágicas! Não, mamães, não é “por favor”, nem “obrigado”. É “Orlando Bloom”. Não é obsessão pelo ator. “Jennifer Aniston”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Débora Falabella” me despertam a mesma necessidade. Meu repertório de comédias românticas me denuncia a qualquer um. Sou fã! Não nego. Chega! Passei a vida inteira com vergonha de confessar que Sandy, a mocinha de Grease é a minha musa inspiradora.

Parecia abstinência: eu precisava de “Tudo Acontece em Elizabetown”. Só pensava na cena em que os dois passam horas no telefone. A Kirsten é demais. Eu quero usar top marrom e touca vermelha pra chegar um pouco mais perto do que é a Claire (personagem dela no filme, se você é uma mulher romântica, já sabe). Como se um figurino besta me tornasse uma pessoa rodeada de romance, com atitudes românticas. Quando cheguei na vídeo-locadora, um “alugado” era a última notícia que eu queria ouvir! Eu teria de ir pra casa sem a minha pitada de romance. Eu fui. Fazer o quê?

Por que será que eu precisava dessa superficialidade toda? Por que é que quando eu fuço a vida de uma pessoa que ama as flores, a família, a horta e um marido que lhe serve vinho tinto, depois de um dia pesado, todo esse amor parece tão mais intenso do que as coisas que eu vivo?

Size The Day! Carpe Diem! Talvez se eu respeitasse isso, o amor não faria falta. Eu não acordaria em minhas madrugadas para ligar a TV e assistir a alguma história espontânea de amor. Acho que eu quero viver aquilo, do mesmo jeito. Se eu pensar que a minha vida é uma trama tão romântica quanto todas as comédias e novelas e séries que acompanho, talvez eu parasse com essa coisa de “necessidade”. É que sou tão ansiosa, quero ver logo o final feliz da minha história.

Acabo me enganando o tempo inteiro lendo revistas de bem-estar, tentando seguir os passos à risca para ser feliz no amor, na carreira, para dar um passo ousado, para criar um ambiente harmonioso (sem feng shui, pelo amor de Deus) em que eu possa viver e trabalhar. Sinceramente nunca cumpri nada do que, um dia, concordei em fazer ao ler essas matérias. Eu mereço passar por essa necessidade! Vivo planejando o meu romance e o resto da minha vida. E tudo fica só nos planos. Quando paro pra pensar na minha música, na nossa, descubro que não tenho. Quando quero te presentear, erro, não presto mais atenção em ninguém que não possa receber um Oscar ou Emmy um dia. Quando quero rever as fotos das pessoas e lugares que um dia conheci, não vejo, pois tive preguiça de bater.

Enquanto isso eu desprezo o meu tempo e tudo o que eu poderia fazer de diferente agora e projeto a minha felicidade nos romances dos outros, como se fossem meus.

 

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

À ESPERA DA BRAZOCA DE GENALVA

(Texto que concorre no Concurso Literário de novembro da Revista Piauí)

http://www.revistapiaui.com.br/2007/nov/concurso_p.htm#p

 

    "Genalva, vem me buscar que eu estou odiando." Desligou o celular pré-pago e limpou o visor na jaqueta. Joana não era dada a festas de família. A tia perguntando quando iria se casar. A avó vagando pelo salão escondendo bolachas Maizena nos bolsos do penhoir. A mãe, Dona Edi, escancarando a vida dela para quem quisesse ouvir. A solução, depois que completou dezoito, era se embriagar com latinhas de cerveja Cintra. Ainda por cima não entendiam nada de bebida! Mas a cerveja subia que era uma coisa! E tinham os risoles encomendados da padaria do bairro da Casa Verde. Odiava aquela massinha branca que ficava nos dentes sempre que mordia um. Recorria à torneira do banheiro unissex, limpava os dentes e voltava ao porre: bebida e festa.
    Enquanto Genalva não chegava, o primo arriscou uma conversa boba. Menos mal. Ela tinha mais paciência para pagode do que para as pitangas que a tia solteirona chorava depois do Parabéns Pra Você, seguido de Com Quem Será?. Assim resgatou da pré-adolescência Domingo do Só Pra Contrariar. O primo não se lembrou. “Cadê você, Genalva?” Abriu a quinta latinha e desejou que o barulhinho da pressão fosse mais longo. Deus! Como gostava daquele som! Recordou-se de Rony. Sempre que levava um fora dele, conhecia alguém interessante. No último, Genalva, que surgiu dizendo “Olá” e abrindo uma cerveja. Nada romântico, mas o jeito como ela consolou suas lágrimas minutos depois, faria até a mãe de Joana aceitar. Almoçariam com Dona Edi aos domingos.
    Ainda não avistava a Brasília de Genalva. Uma droga ser garçonete! Nem dinheiro para comprar uma Vespa e adquirir a liberdade de ir e vir! Poderia usar botas de couro, enquanto recebesse o vento das ruas de São Paulo no rosto! Ao estacionar em frente ao serviço, tiraria o capacete vermelho, balançaria o cabelo e acenderia um Marlboro Light. Fumaria até se encher. Ao fim, jogaria a bituca no chão e apagaria com o pé. Sim, ela tinha seus momentos femininos, apesar de odiar saias. Mas não tinha uma Vespa e dependia da Brazoca da Genalva. Uma ponta de inveja da esposa!
    Ouviu o barulho do motor típico dos carros dos anos 80. Joana disse “Tchau” sem olhar para ninguém e desceu as escadas em direção à rua. Antes de entrar no carro, a mãe saiu à porta. “Arranjem logo um namorado! O povo comenta!” Joana inspirou fundo todo o ar da Casa Verde e se sentou no banco cheio de pó. Genalva ligou o RoadStar na Nova Brasil FM. Tocava uma música da Ana Carolina. As duas sorriram e foram embora dublando Pra Terminar.

 

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