sexta-feira, 17 de maio de 2013

30 HORAS



Contas. Vontade de ondas. Pó no canto da sala. Cerveja seca, a lata.
Tarefas chovendo na cabeça. Acumulam-se.
Melancólico e solitário, o meu olhar.

Tem lista na minha frente. Tem buzina. Tem medo. Tem teto. Tatuagem cinza no céu. Tem branco. Tem tudo o que deixei pra trás.
Entupindo.
Transbordando.

O tempo taquicardíaco.

Não tolero meus fracassos, tontos. Tentativas tontas.
    Tanta coisa.

Teus beijos distantes - tão distantes que me dão pressa. Taquipressa.

Tuas palavras de antes.
Trepadas. Pra tua coleção.
Fui teu tédio.

Mas tem a lista pra ticar. E o dia pra se despedir. Tem a comida fria. Tem o banho que não aquece. Tem pílula. Tem trabalho que só o celular pra lembrar. E linhas vazias aguardando a porra sair do teclado.
E as contas.
A fissura por ondas.

Então todas as nossas vezes deixadas pra depois.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

ROBERTA INDICA: NO TEU DESERTO, DE MIGUEL SOUSA TAVARES


SOBRE O SILÊNCIO





O nome do autor é  Miguel Sousa Tavares. Ele nasceu na cidade do Porto, Portugal, em 1952.


Uma amiga querida disse que tinha um livro que eu iria gostar muito.


Gosto de prestar atenção nessa troca de energia que existe entre as pessoas. Troca de livros é troca de energias. É partilhar com o outro palavras. Dar ideias de presente.


O livro: "No Teu Deserto". O autor, Miguel Sousa Tavares: um jornalista que, vinte anos antes de escrever esses relatos, tinha atravessado o deserto do Saara.  Ele, um jipe e uma moça que ele conheceu na viagem, uns quinze anos mais nova que ele.


O livro é uma ode ao silêncio.


É dele esse trecho:


" (...) e eu sentia-me bem assim, protegida pelo som da tua voz, pelo teu relato de florestas distantes e estranhos nomes de peixes e bichos que ali pareciam tão irreais como irreal me parecia toda esta felicidade que não te sei dizer! E só percebi quando a perdi.


A maior parte do tempo, porém, o que nós partilhávamos era o silêncio. E isso eu aprendi contigo, porque não sabia. Para mim, o silencio era sinal de distância, de mal estar, de desentendimento. Ao princípio, quando ficávamos calados muito tempo, eu sentia-me inquieta, desconfortável, e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passar entre nós.


Um dia tu disseste-me:


- Claudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silencio."


Lendo o livro lembrei de um filme. Talvez um dos mais belos filmes que eu já vi. "Camelos Também Choram".


Lembrei dele pelos camelos, pelo deserto, e pela economia de palavras.
Esse filme quase não tem diálogos. Praticamente não tem trilha sonora, só o som do vento de areia. O filme é sublime. Assim como é sublime a vida dos nômades do deserto. A comunicação que dispensa quase tudo.
Mantém somente o lindo e mágico entendimento entre as pessoas.
Sem exageros. Só o essencial.


Pensando no silêncio e no bonito deserto que, parece-me porque espelho, está dentro de mim.


Lembrei do Deserto do Atacama, 2008. Uma viagem linda.


Aí lembrei de 2009, dez dias caminhando pelo litoral do Uruguai. O deserto das praias uruguaias.


Vale a pena conhecer as praias do litoral do Uruguai: Caminhar por elas é inacreditavelmente reparador para a mente. As praias uruguaias não têm o recorte e a vegetação que conhecemos no litoral brasileiro. São como um deserto de dunas.
Olhar o monocromático da areia e do mar descansa os olhos. Sossega dos excessos de estímulos visuais.
A ausência da poluição visual permite sua mente vagar livremente...


Estar na natureza é a coisa mais importante da minha vida. Não abro mão desse contato nem um ano sequer.


Ela sempre consegue me mostrar o que tá passando dentro da gente.


Amós Oz... o escritor israelense, sabe disso. Ele vive no deserto.


"Há 20 anos, moro numa pequena cidade no deserto chamada Arad, no sul de Israel, cercada pelo deserto...Todas as manhãs, acordo cedo, às 5h, tomo uma xícara de café, vou ao deserto e caminho em silêncio, sozinho...O deserto me ajuda a ver as coisas em perspectiva; ele me ajuda a descobrir o que é importante e o que não é importante. O deserto é uma experiência de humildade e uma profunda inspiração."


Por que não construir um pequeno deserto particular de silêncio e sossego, e se debruçar sobre “No Teu Deserto”? Se deliciar com as descrições de uma viagem, que acabou mudando pra sempre a vida desse jornalista?


Porque não aproveitar a economia de palavras e assistir Camelos Também Choram” ?


Odes ao silêncio.


" (...) - Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno...


- Escrever não é falar.


- Não? Qual é a diferença?


  • É exatamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares demais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer."



Trecho de “No Teu Deserto”



Serviço
No Teu Deserto
Autor: Miguel Sousa Tavares
Editora: Oficina do Livro

Camelos Também Choram
Diretores: Byambasuren Davaa e Luigi Falorni
Ano: 2003


*

A autora do post: Roberta Nader é ativista pra mudar o mundo. Roteirista no horário comercial. Leitora compulsiva. Escrever é uma vontade... Que nunca passa. 
Leia o blog dela clicando aqui.

terça-feira, 30 de abril de 2013

O SOLUÇO




Olha para os trilhos do metrô. Para uma banheira e um secador. Para cordas. Para comprimidos. Olha do décimo sétimo andar. Sem ser tocada pelas ideias de antes. A porta abre, ela invade o vagão. Ocupa-se com o celular, os sapatos dos passageiros. Sempre tem alguém tossindo em cima dela. Sempre tem um senhor frágil que se recusa a sentar, quando lhe oferecem. Na TV, seu horóscopo nunca passa. Um casal chora abraçado, perto do assento preferencial, e ganha alguns segundos do foco dela. Segundos hipnóticos. Ela decide voltar para o celular, para os sapatos dos passageiros. Ela decide não se envolver. Repara em uma sandália lilás enfeitada com miçangas e ofuscada por um pé cascudo e unhas sujas. Um homem a encara. Um homem fedido a encara. Um fedido bom. Um fedido suportável. Cheiro de pessoa normal. O que é normal? Pedro se acha normal. Normal pra ele é não precisar de alguém como ela precisa. Ela é capaz de suportar essa anormalidade? Normal para Pedro é fugir dos clichês que ela aprendeu a gostar. Ele odeia o que tem que ser feito. Isso é normal para alguém como ele, que encara correntezas. Normal é escrever sobre ela não conseguir lidar com as normalidades dele. A menina do casal soluça. O garoto a abraça mais forte. Ela procura outra coisa para observar e repara que seu casaco está forrado de fios de cabelo. O que será que diminui queda capilar? A internet deve ter a resposta. A voz do motorista anuncia a estação em que ela costuma descer. Ela sai, abraçando uma mecha de cabelo frágil com o dedo indicador. Sem vontade de soluçar, sua anormalidade.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

TEXTO VENCEDOR DA PROMOÇÃO: "O AMOR PRECISA DE DESPEDIDA PARA NÃO SER ETERNO"

por Angélica Leal

Eu não me importo com o seu relógio com os ponteiros sempre atrasados. Não me importo com os bares e lugares que você escolhe. Eu já não te espero, nem te acompanho. Não me importo com as vírgulas mal empregadas e as frases que você não sabe formular. Não aguardo nenhuma mensagem, nenhuma carta num corpo de e-mail. Não me importo se o telefone não toca, se nenhum alerta pisca. Não espero resposta. E para mim não faz diferença se você se importa, não há nada de novo nisso.

Eu, que sempre me incomodei com cada detalhe, permaneço agora em estado de indiferença. Velho amor é passado, mas é sempre amor, apesar de mudar a forma e agregar a ele outros sentimentos.  Mas isso não tem nada a ver com o que eu penso a seu respeito, aliás, quase não penso. Ignoro cada gesto, cada encontro casual, cada bom-dia com sorrisos amarelos – atitude de dois estranhos familiares.  Finjo não ver, porque é melhor que sorrir.

Era meu melhor amigo, mas hoje somos bons desconhecidos. Dois adultos que não sabem viver sem se esbarrar, sem desviar os olhares. Que conversam no silêncio, na distância, na mudança de vida, na troca de amores. Somos apenas duas crianças que não aprenderam que para seguir em frente, com quem quer que seja, é preciso perdoar. Não se pode ser apenas um quando os nós não foram desatados. Mesmo que nada mais de nós realmente importe, é preciso saber olhar nos olhos e dizer tchau, para que finalmente possamos dizer olá, sem medo.

Eu não me importo com nada em você, com nenhuma mania. Não te quero comigo, nem espero que você me dê a mão. Desejo apenas que um dia possamos agir sem culpa, que saibamos, pelo menos, não desviar os olhos. Em algum momento, eu sei que finalmente aprenderemos a amar de novo, depois de encararmos os anos que não vivemos, apenas remoendo, levando todas as angústias e frustrações do nosso amor antigo para nossos novos amores. E antes de pedirmos perdão a quem quer que seja, que perdoemos a nós mesmos por invalidarmos qualquer possibilidade de alegria sincera ao lado de outras pessoas. Por culparmos os outros pelos nossos próprios erros.

Quem quiser conhecer mais o trabalho da Angélica Leal pode clicar no link do blog dela, o Cotidiano,

quarta-feira, 17 de abril de 2013

FRAGMENTOS DE UMA CAMINHADA - #Nicolielo'sDiary



garota no campo

Pedreiros satisfeitos dormem sob árvores, que enfrentam o sol agressivo que faz quando a marmita esvazia.

O vento sussurra algo no ouvido de folhas secas, que abandonam o cochilo para sassaricar pela rua. Enfeitam o meu rastro.

A casa da esquina, já decadente pelo seu bege descascado, observa a melhor paisagem do bairro: o outro lado do morro, onde casinhas coloridas se espremem, compondo a intenção de parecer um quadro.

O meu tênis velho, salvo três vezes pela cola de um sapateiro aposentado.

Os meus olhos tentando invadir as janelas daquelas casas. Avistam um pergolado e o desejam.

Um garotinho loiro parece ter dois anos e conversa, com sua voz extremamente fina e infantil, com a avó peituda, que está sentada em um banco de madeira escura na área da casa.

O homem que lava o seu taxi religiosamente aos domingos e às quartas, descaradamente com seu short curto debaixo de uma enorme barriga. O homem era amigo do meu avô.

A casa em exposição, arejada, cheia de escadas e uma graminha e uma piscina limpa e azul, de novecentos e vinte mil reais, onde eu não moraria, porque novecentos e vinte mil reais, faça-me o favor.

Então, o latido do cachorro. Aquele que, sempre que me vê, late, rodopia e pula, necessariamente nessa ordem. O meu cachorro.

O portão fechando. A primeira caminhada.

*

Em que você repara quando caminha pela cidade? Conte pra mim. ;)
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