O som surge
A língua seca
O coração breca
A mão balança
frenética
O olhar escurece
dramático
a garganta entupida
de restos embriagados
hesita
A palma sua
Um sorriso tonto
se mistura
ao dia todo
- Pegue a aspirina para mim!
Ela guarda os remédios dentro de uma caixa velha de sapatos, que deixa em cima da geladeira. Talvez as gavetas estejam entupidas de potes Tupperwares queimados, oleosos e sem tampas. Além de aspirina, sal de frutas, remédio para o estômago, calmante, antialérgico e Band-Aid. Suas dores são tão fortes durante a noite, que é incapaz de se levantar da cama. Espera-me chegar.
Prefiro a solidão. Entrar em casa e esquecer a sandália ao lado do sofá junto com a bandeja que usei para jantar macarrão instantâneo em frente à televisão. Dormir em meio a roupas sujas jogadas em cima da cama e acordar seis horas depois com a música gospel que toca no rádio-relógio. Em vez disso, é a voz rouca dela que me desperta, pedindo três reais para comprar o pão.
- Pegue a aspirina para mim!
Procuro em vão por talheres limpos e guardanapos de papel. Esquento o jantar, que ela deixou pronto para mim em cima do fogão: arroz, cenoura refogada e filé de frango. Penso em reclamar a falta de feijão. Seu arroz continua empapado, a cenoura, crua e o filé, malpassado. Mas o cheiro é bom.
Ignoro a caixa de sapatos. Vou até o quarto dela e, sem acender a luz, dou-lhe o copo de água e uma pedrinha branca que decora o aquário do peixe.
Antes que se entregue aos sonhos, suas dores cessam.
(texto lido no terceiro sarau da AIC em 4 de junho)

Enfim conheci a letra B que, prometeu a casca de laranja rompida depois de nove giros velozes, vai voltar para casa com um conto doce nas mãos só para me agradar, dizendo que eu não preciso emagrecer, porque sou bonita assim, com cinco quilinhos a mais.
Que tome nota disso tudo a letra G, que encasquetava comigo! Não a culpo. Como não associar destino ao desenho de veias no peito do pé esquerdo?