terça-feira, 28 de agosto de 2012

HISTÓRIA EMBOLORADA




De um menu, escolho sempre a mesma entrada: esgotar brechas solitárias de uma página a mim confeitada. Um tempero que não abandono: me untar até o último grão de tudo. Garfo palavras, antes de esfriarem. Amasso frases, para que se encaixem no cantinho inferior do papel. Um prato-feito-escrito escorrendo da minha boca. Recheio as bordas dessa página, para te agarrar pelo coração. Molho o indicador e lambuzo a caneta. Dá gastrite desperdiçar o que está bom.

Dessa história que mordi, senti o bolor, já no beiço. Meu encanto azedou. Você murchou, porque esqueci de acrescentar as vírgulas. Espirrei pasta mastigada, mistura brancazul. Minha saliva rejeitando o final de um conto que eu ainda preparava. Minha vontade marinada para outra refeição. A língua queimando de silêncio. Tristeza a la carte.

Errei a mão. Exagerei no açúcar. Ignorei a receita, fiz de olho. Arranquei do forno antes do tempo. Esqueci diálogos na geladeira. As letras apodreceram, de uma linha pra outra. Um ponto final amargou a boca. Reticências depois da barriga cheia. Frases interrompidas fervendo no teclado. Água e sal sobrando no meu rosto – com chorinho. Eu cega à validade das coisas. Eu, nem em banho-maria. Estragada, no lixo.

14 comentários:

Danny disse...

LINDO, PRISCILA!

Carolina Loyola Gimenez disse...

Nossa, AMEI !!!!!

Priscila disse...

Danny e Carolina, obrigada! <3 beijos

Leo Longo disse...

Conto brulée que descongela qualquer carne! Parabéns Chef.

Priscila disse...

obrigada, querido Leo. :)

Anônimo disse...

Sou sua fã! Adoro muito teus textos. Rola uma identificação, sabe?!

Priscila disse...

<3

Van Mortícia disse...

"Errei a mão. Exagerei no açúcar. Ignorei a receita, fiz de olho. Arranquei do forno antes do tempo. Esqueci diálogos na geladeira. As letras apodreceram, de uma linha pra outra. Um ponto final amargou a boca. Reticências depois da barriga cheia. Frases interrompidas fervendo no teclado. Água e sal sobrando no meu rosto – com chorinho. Eu cega à validade das coisas. Eu, nem em banho-maria. Estragada, no lixo."
Me identifiquei com essa parte, sei lá me lembrou uma história que passei recentemente. Parabéns mais uma vez Priscila. Mais um grande texto com certeza. Abraço!

Thayne disse...

Não tenho como descrever o nó na garganta de ler o último parágrafo e pensar: alguém conseguiu colocar no papel um pedacinho da minha vida..Parabéns e obrigada Priscila, seu dom faz bem pra gente =)

Reges Medeiros disse...

Como sempre superando qualquer tipo de expectativas. Parabéns Pri. Maravilhoso!

Juh disse...

Amei Priscila, lindo lindo.

Priscila disse...

eeeeeeeeeeee

Miih disse...

Uau!Adorei!

Priscila disse...

;)

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