terça-feira, 15 de dezembro de 2009

FÚRIA IMPERMEÁVEL AO SONO...

*

Fúria impermeável ao sono. Violenta, enrola meu cadáver ainda quente em lençol cansado. Quase enforca. Os dentes se chocam. Topam-se na madrugada. Se esfarelam. Quem vence? O desejo da sua carne entre eles. O sangue purificando o ódio esquecido no próximo copo. No próximo corpo. Um sentimento opaco. Invisível daqui.
As pálpebras cerradas enterram. Medrosa da imagem, parto. Fecho. Não hesito. Mais.

*

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

HE ('S)


Eu não me lembro se foi o que ele disse ou como ele disse.

Ou se ele NÃO disse. (...) Eu quis ir pra casa. Joguei meia lata quente. O lixo ainda tava vazio. Era o começo. O dj não tava nem suado ainda. (...) Ela cantou. Eu viajei. Me and my head high. Ela destruiu. E eu pensei. Talvez ela combine mais. A voz seduzindo um microfone. Meu olho não focava direito. Deu sede. Eu só pensava no que ele me disse ou em como ele me disse.

Mas lembrei. Ele não me disse mesmo.

Uma água sem gelo! O silêncio dele desenhando meu comportamento. Minhas frases cambaleantes e eu desprezando bate papo de fumódromo.(...) Parece que tem fumaça aqui dentro. É que olhei pro balcão e pensei naquela noite. Eu achei que só em filme ruim o flashback vinha embaçado.
Naquela. Quando eu não desgrudei de você.
Naquela em que derrubei alguma coisa na camisa de não sei quem.



Eu nunca desgrudo. Com você não dá.



Era você esses dias cantando ali nos fundos?
Ela canta tão bem. Que eu até me esqueci dele.
Eu fui pra casa triste por um motivo novo.
Eu fui pra casa tentar dormir.
Mas a voz dela não deixou.

You go back to her and I go back to us.

Us.

Us...

Quantas vezes? Sempre.
Sempre um us. Ou mais.
Mas sempre.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Despertador Nokia. Mais meia horinha. Banho. Que quente, porra! O que falta? O vestido pink que a mãe pediu. Vestido pink? Eca. Ração pros cachorros. 3 tigelonas para aguentarem o final de semana. O que você tem no focinho? Outro cogumelo no jardim! Barriga hoje não. Taxi! Errei o cheque. 24 horas. Vou perder o fretado. Calor. Tira esse lenço do pescoço! Peruano, me dá passagem, por favor! Ônibus saindo. Fôlego esvaziando. Pára, motorista! Menino folgado no banco do lado. Ou tarado? Marginal fotográfica. Pára de roçar a perna em mim, moço. Trabalho. Volta. Aeroporto. Xingu. Duas, por favor! Para compreender a turbulência.

#fortalezaemchamas

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

(SILÊNCIO)


E tinha aquele mal estar. Você se lembra? Ainda bem que passou. Eu olhando pro azulejo encardido de comida sem gosto. Você, pra mim. Eu deixando o meu corpo para o seu discurso. Um marionete sem vida? Não. Você me transformando em personagem. Eu cortando as cordinhas todas as noites. Escorregando com desculpas descaradas e reais. A culpa pesando. Por quê? Não fiz nada. Não amar mais é fazer alguma coisa? Me deixa abrir essa porta. Quero ir pra rua e voltar só mais tarde. Quando você tiver partido. Posso te ligar de vez em quando? Posso dizer alguma bobagem do tipo Foi bom enquanto durou?
O inverno vai voltar. Minha voz também. Daquele jeito que eu cantava. E talvez eu sonhe um dia com essa estranha autocobrança de tentar andar de outro jeito. De não conseguir. Porque caminho assim. Como caminhava antes de você (?). Os calos são menores. As unhas podem ser feitas. E eu posso deixar cair um pouco de cerveja no sapato que Tudo bem. Tudo bem. Eu tô bem. Eu vou ficar. Me perdoa? (?)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

APAGÃO

Dentro de um corpo imóvel.

AAAAAAAAAAAAAA.
Alguém ouve?
(Silêncio)
Melhor assim. (?)
Alguém vê?
...

O sono chega ordenando:
Fechem os dois olhos! Abram o bocejo da boca.

A cama deita em lençóis e convida sedutora:
Vem. Veeemmm...

Eu vou.

Deixo as folhas adormecerem na calçada da frente. Os cachorros procurando algo sólido no prato. As multas invadindo a caixa do correio. O telefone gritando seu monólogo sufocado. O tanque do carro tosse o ar seco e alcoólico. Rodas chutando alguma quina de calçada.

Eu talvez repique o cabelo em cima da pia do banheiro. Talvez não entenda um livro enquanto me agarro ao sofá. Talvez ceda aos excessos noturnos até de manhã. Talvez o relógio me espante:
Olha como eu faço as horas correrem!
Talvez o espelho me espante:
Olha como eu faço os anos passarem!
Talvez eu fique com a minhas gírias velhas.
Talvez até me deixem lembrar de quando aprendi tabuada.
Talvez não tenha tempo de ver o nascimentos dos vincos.

BI BI BIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

O cheiro de álcool no estofado. O cheiro do ferro do sangue.

Minha família surpreendida e salgada no quarto de um hospital.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

NUMA AVENIDA COM CARROS PASSANDO

Parecia um chapéu russo. Mas não era. Se não fosse preto, poderia ser um travesseiro de penas ou plumas ou pelinhos artificiais ferido e esquecido na sarjeta. Se não estivesse manchado de vermelho, poderia ser um abraço de panos de prato sujos que se aposentaram da parte boa da copa e agora lambem o xixi de algum poodle chato e caramelo. Se estivesse vivo, faria miau. Eu olhei. Eu sempre olho. Pra alimentar a ânsia. Olho condenando meu olhar. Olho me proibindo já. Mas é ímã o bizarro. Quem nunca quase bateu o carro porque quis ver a forma que toma um gatinho esgotado de sua sétima vida, cuja última imagem que fitou foi um pneu?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

AS MARCAS DO PULSO NÃO SE DEIXAM ESCONDER...


As marcas do pulso não se deixam esconder. Em que mês estávamos? Lembro que já era verão, porque eu suava dentro de um vestido de mangas curtas. Foi no dia seguinte àquele. O desejo do fim se espalhando dentro de uma banheira com água quentinha. A solução para estancar emoções azedas. Que se assumem físicas. Eu fiz tudo errado. Cortes horizontais. Tudo inconscientemente errado. O cabelo molhado abraçou o travesseiro e secaram juntos, levando meu verbo. Enquanto parentes me visitavam com mãos apertadas e olhos cheios de dó. Que se fodam. Uma tia beata e um cartão com um salmo. Está lá até hoje, em cima do criado-mudo. Empoeirado. Aguardando uma voz que o parta. Eu olho pra ele quando chego de madrugada e deixo meus brincos descansando ao lado. Olho pras rosas da imagem do fundo e penso na minha vó. Deixamos morrer a roseira que plantou quando era moça. Flores para homenagear a morte dos pais. De pais que não queriam morrer. Acontece. Por que a gente luta tanto contra? Acontece. Faz tempo não penso nessas marcas. É que hoje elas ardem. Como se acabassem de nascer. Um pressentimento. Como se a qualquer minuto pudessem se abrir de novo. Duas tiras de gaze manchadas pelo pranto dos pulsos. Parece ontem. Meu desassossego volta a transbordar. Preciso enterrar meus pés bem longe daquele dezembro.

sábado, 15 de agosto de 2009

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

É A NECESSIDADE DE...


É a necessidade de enxugar o que pesa. O chumbo do desgosto desprezando o ar. Uma imagem distante abraça a solidão. Assume a carícia no rosto insistente. A boca se humilha em vãos impulsos. Boca insatisfeita. Boca besta. Boca ignorante. Incapaz de mostrar as costas. Armadilha dura e violenta. Por que tá aí parada? À espera. Vulnerável. Se existe o sonho de uma outra vida. A vida dos livros? A vida do espelho? A que te contaram? Se existe, por que tá aí imóvel? A ideia que te persegue há algum tempo. Como aquele amor coberto que vai e volta. Confunde. Esvazia a ideia. Vive a ideia. Até pedir arrego. Manda tudo pra puta que pariu. E se espalha na ideia. Depois levanta a bandeira branca e volta à vida comum. Vida de merda.

ESGOTAR A ÚLTIMA GOTA...


esgotar a última gota
do mar e do silêncio

folhas brancas à espera
de convivências zeradas

solidão
como pretexto

os textos
encadernados pelo
novo

só.
um desejo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ACHEI QUE NÃO FOSSE ESCAPAR...


Achei que não fosse escapar. A gente costuma achar. Um saco de pedras preso aos pés. A dor mais forte é sempre a presente. Por que ela se traja de eterna? Por que ela não garante sua partida? Não peço data, mas a certeza de que munida de trouxa ela passe. Certeza que hoje possuo. Certeza atrasada. Certeza meio torta, porque somos pegos de surpresa. O tempo todo. A tranqulidade que se avessa e revela dias pesados e rotineiros e infinitos. Dias que não ornam com os seguintes: os afastados e, talvez e infelizmente, dormentes. Não mortos. Dormentes. Será que por isso tenho sono? Uma ressaca da surpresa ruim. Da fadiga de sofrer numa única tarde as facadas que me derrubavam há anos. Todas de uma vez. Mas uma hora o sangue estanca. O buraco fecha. Depois, só as cicatrizes. Aparentes. Tristes. Que tentam se esconder debaixo do maiô. Que se disfarçam no silêncio. Num olhar evasivo...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

SE EU NUM GUENTO, POR QUE VOU?


Agora não posso nem mais salgar a boca com a tristeza que começa nos olhos e escorrega como avalanche, hidratando a pele. Alagando o que me cerca. Meu carro abrigando um mar. E antes que vocês, leitores avessos ao meu romantismo, se encham deste texto, adianto: não haverá sofrimento nas próximas palavras. Peço a paciência de todos. Me proíbo de chorar, pelo menos por mais uma semana, porque quando deslizo a mão pelo nariz, de cima para baixo, afim de salvar a minha calça jeans dos pingos indomáveis que escorrem dele (porque tristeza é coisa pra trânsito. Só permito que os caminhoneiros assistam ao meu ensaio para o Oscar. Ou um Shell, se for menos pretensiosa). Quando deslizo a mão pelo nariz, de cima para baixo, a presença da cotovelada que tomei na Gambiarra desse domingo se manifesta. Por dentro, meu nariz lateja uma dorzinha boa, que me lembra a infância. Quando eu corria de um ponto do corredor até esbarrar meu joelho na porta lá no fundo. Dor boa, mas incômoda. Nem fazer o meu drama mexicano e essencial posso mais? Porque limpar nariz com a mão, ato nojento mas necessário quando não há lencinhos nem coachecóis dando mole dentro da bolsa, não tem o menor sentido se delicado. Tem que ser macho pra dar cabo daquele catarrinho que água a palma da mão. Eu sou macho. Mas essa semana não posso. Além da dor, o trabalho. Devo chegar intacta. A porcelana de sempre. Rosto pálido, retocado por um blush barato e que provavelmente é o causador da alergia e dos cravos abertos da minha pele. Nada de olhos e nariz vermelhos, porque a Maria do Bairro tem que ser forte. E é isso que ela vai ser. Hoje. Com brincos menores e cabelos menos penteados. Ou quem sabe uma Cameron Diaz de calcinha e top dançando feliz pela sala de estar uma música que funcione como álcool. Como o garçom que consola. Um Black Eye Peas... isso parece até nome de drinque. Hoje eu vou tomar um Black Eye Peas até o chão!
E graças as minhas decisões não haverá caminhoneiros no local...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

SENSAÇÃO OU NOÇÃO?


vivo pela metade. amo pela metade. abraço pela metade. me doo pela metade. converso pela metade. contemplo pela metade. penso pela metade. me despeço pela metade. odeio pela metade. rejeito pela metade. confio pela metade. e blá blá blá.

domingo, 26 de julho de 2009

 

água salgada no canto do bar nunca é bom anúncio.

a porta teve atenção como antigamente

Ela não vem

mais

há muito tempo

Eu que fiquei

medíocre

e meu nome não incita

recordações

nem ventania

na barriga

 

terça-feira, 21 de julho de 2009

PAUSE


Na sala discutiam pizzarias e espirros. Que a covinha do presidente apareceu quando começou a raspar os pelos do rosto. A televisão ligada bisbilhotava algum cenário da novela das oito. Perguntaram-lhe como andava o trabalho. Alice deu de ombros e foi até a janela. Alguém insistiu Já conheceu o meu amigo do financeiro? Alice ignorou a pergunta, talvez porque também ignore o tal amigo. Desligaram a TV e cochichos desculpavam-se pela dificuldade que ela desenvolveu para assistir a novelas. No céu a lua apagava-se lentamente. Por seis minutos a escuridão hipnotizaria Alice. Um momento que inspira silêncio e contemplação. Nada de Brasília e vírus. Instantes que demoram a voltar. Disseram 123 anos. Quando ela for ossos ou cinzas. A vida poderia ser mais previsível como a data de hoje. Algum físico poderia dizer-lhe em que oceano ela vai desaguar? Alice pulou a janela para deitar-se na grama úmida do jardim e esvaziou os conflitos habituais da cabeça. Criaria um novo. Tenho apenas seis minutos para aproveitar. Encaixou as mãos entre folhas e nuca. E os olhos, na sombra redonda.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

DAQUI...

Daqui.
Do outro lado da praia contemplo a sua música, enquanto escrevo as próximas páginas - dores paridas me enjoam. Não me reconheço no ontem.
Daqui. Inalo a melodia. Trilho meu tom seguinte. Tão grave... Te agrada? Eu sei que não.
Porque abandono esse lamento pedinte por folhas impreenchíveis, fadadas ao cesto de lixo do meu corpo.
Sua letra inunda calma o lado de cá. A espuma toca unhas assustadas, me encara.
Daqui. Sussurro seus acordes. A distância tapa seu ouvido.
E eu não sei se devo cantar mais alto.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

FORASTEIRA

*

A MOÇA está de pé. Calça jeans. Cabelo solto voando. Um chão seco e batido embaixo de sua bota. Vemos um raio de luz furando as nuvens cinzentas do céu e manchando o corpo dela. Ouvimos uma música com volume bem baixo, não conseguimos identificá-la ainda. Cheiro de cerveja. A luz do sol preenche a cena e um sorriso, o rosto dela...

*

segunda-feira, 13 de julho de 2009

CORRE. CORRE MESMO...

Corre. Corre mesmo. Naquela direção. Pula. A timidez enlaça intensa o corpo bruto desviante. O corpo desamarrando-se insensato. Incapaz de se embaralhar. As pernas cansadas desistem. Tocam a realidade do cimento. Vão pra casa esquecer. Ligar a televisão. Beber cerveja. Arrumar a cama. Dar banho no gato e planejar o novo salto. Inventar o novo texto. A modulação do toque. O tamanho do olhar. O escudo da próxima vez.

Inspirado em uma frase que li em um blog amigo.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O QUE SEI DESSES...

O que sei desses tempos? Não os encomendei. Não os aceitei. Não os compreendo. Nem em gestos irresponsáveis sugeri que se aproximassem. Que fiz eu? Agora se enrolam em mim. Transformaram-me em estátua. Taparam-me as narinas. Meus bruscos escapes não ornam com mais nada. Escorrego delicada e lentamente. Outros tempos. Uma seda deslizando em um abraço noturno. Visando um dia o chão e pés. Lágrimas manchando sapatos, implorando centavos. Romântica e estúpida mania. Focos desviados durante interesses ditos. Que quero eu? Uma porta calada, sua chave esquecida. Que pretendo agora?
Evaporar...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

ALICE

Aquela padaria me lembra Alice. Não porque já estivemos juntas lá. Nem porque ela me segredou que o pingado deles é o melhor da cidade. Mas por causa de um rapaz que expôs para a pessoa ao lado que se lembrava de Alice sempre que passava por aquela padaria. Estava na minha frente na fila do teatro. Quem falava de Alice? Da minha Alice. A que presente ela pertence, do qual agora me exclui? Senti ciúme e desde então troco a rua e o semáforo pela padaria quando passo por ela. Alice pode estar lá. Me apropriei da memória de um estranho. Fiz a relação dele com Alice tornar-se minha também. Por quê? Se o que tínhamos era tão mais profundo que a imagem dela sentada num balcão tomando refrigerante ou pagando a conta com seu cartão de crédito? Eu pensava em Alice quando ouvia uma música dos Beatles na rádio. Eu pensava em Alice quando me perdia em seu bairro por causa de entrevistas fracassadas de emprego. Ou mesmo quando, sem querer, abria o guia de ruas em alguma página da Bela Vista. Às vezes colocava o vinil de qualquer um - Pavarotti, Caetano, Aretha – só pra ouvir o chiadinho debaixo de suas vozes. O chiadinho hipnótico aos olhos profundos e escorregadios de Alice. Decorei um parágrafo inteiro de seu segundo romance e, meio bêbada, meio impulsiva, recitei para ela no meio de uma festa. Alice não se lembrava de ter escrito nada do que naquele momento ouvia junto com a música. Talvez não fosse mais a dona daquele desabafo. Quando você voltar, eu vou arremessar no seu cinismo todas as flores que ganhei. Você vai espanar as pétalas que escorreram para o ombro e partir. Quando estiver a cinco passos de mim, vou cantar aquela música que você não decora. Você vai voltar e provar que prestava atenção quando eu te ensinava. Eu vou ouvir, séria. Vai me olhar com a mesma expressão de quando leva bronca, pegar a rosa mais despetalada do chão e entregá-la a outra, como você sempre faz. Eu vou desligar a sua cena e tomar o copo de cerveja para não mostrar que minhas mãos tremem. Vou esperar no balcão alguém com um ramalhete. E quando você voltar eu vou atirar mais flores na sua cara e depois que você cantar pra mim, eu volto pra você. Você sabe. Eu volto. Ela me disse Não sou eu. Mas essa ideia de Alice ainda me toma. A padaria da qual o rapaz se referiu é só uma tentativa de não tirar Alice das minhas páginas em branco. Mas ela costuma evaporar sempre que me aproximo. Um avanço obrigatório ao fim do seu livro. Páginas virando sem o meu consentimento. A vontade de se tornar mais uma de minhas lembranças. A lembrança de uma padaria. A lembrança de um nome. Alice.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

BIG BLOGGER

Engraçada essa coisa de blog. Alguns, tenho a impressão, de que escrevem pra si mesmos - o que pra mim é a única razão da escrita: eu mesma. É que post sem comentário... Não dá vontade de colocar aquele barulhinho de grilo? Parece que ninguém lê. Mas é mentira. O público existe, meus amigos. Só é meio fantasma. Nossos blogs são como um quarto em que há uma pessoa trocando de roupa. A fechadura está lá. Quem não tem vontade de dar uma espiadinha? Afinal, se a minha toalha tá caindo, é porque quero que vejam. E quem é você pra não presenciar o momento em que ela toca o chão?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

LÁ DENTRO

continua a mesma coisa: as portas se trancaram com força e uma massa tapou qualquer frestinha que pudesse soprar notícias das últimas explosões internas. Lá fora, a lâmpada esquenta o rosto pálido de Alice e ela comtempla o chão quadriculado da sala. Por alguns minutos. Depois se levanta e coloca a água do chá para ferver. Até ferver. Até sufocar o fogo. E dorme na cozinha. À espera das portas e janelas cederem.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

UM BEIJO EM REDE NACIONAL



É a avó da minha amiga Cristiana. Passa as tardes com a bunda fincada na poltrona e os olhos na televisão esperando dar a hora do programa de astrologia. Dona Julieta é fã do apresentador, não sei se por causa do queixo grande - igual ao do falecido marido - ou do sorriso de bom moço. Arrisco dizer que é paixão. Dona Julieta olha para a tela como eu, quando via a Alicia Silverstone nos videoclipes da MTV nos anos noventa.
Formei-me jornalista com o sonho de escrever para algum caderno de cultura, porém contas a pagar só combinam com os sonhos da hora de dormir. Quando Cristiana revelou à família que eu trabalhava no mesmo programa de astrologia, sua avó não se interessou em saber se o apresentador era realmente astrólogo, nem se era o próprio quem escrevia - de segunda a sexta, horário comercial - tudo o que os astros reservam aos signos do zodíaco.
Se me permitem confessar sem que suas ilusões, meus leitores, desfaçam-se com violência, eu sou o responsável pelo que acontece a cada um de vocês no amor, na carreira, na saúde e no sexo. Sei de cor o cruzamento dos signos e aconselho de antemão: piscianos, corram da cama dos sagitarianos!
No meio do almoço em que serviu coelho com alecrim, sua receita que mais detesto, dona Julieta me pediu:
- O Fernando Garcia poderia mandar um beijo pra mim?
Tocou a minha mão. Há uma certa doçura nesse tipo de desejo. Um beijo em rede nacional. Prometi, sem que o gosto seco da coxa do coelho e a aversão de Fernando Garcia a agradar fãs com beijinhos para as câmeras interferissem no compromisso que eu acabava de assumir.
Acho Fernando Garcia um homem cinza. Sempre tenho a impressão que as pessoas secam quando ele passa. Mesmo assim, decidi brigar pelo beijo de Dona Julieta. Ele fingiria não me ouvir e eu voltaria para casa satisfeito. Pelo menos tentei.
Aproveitei a terça-feira em que ganhei um bom dia de Fernando Garcia. Trabalhei a respiração, levantei-me da cadeira e andei em direção a ele, que olhou para dentro de mim. Sua expressão secou minhas mãos suadas de nervoso e a saliva da minha língua, que já implorava pelo gosto do coelho com alecrim de Dona Julieta. Desviei de Fernando Garcia e fui para a cozinha pegar um copo de água.

* CONTO QUE ESCREVI PRO SITE GUIA DA SEMANA

sábado, 23 de maio de 2009

MINHA CARTA DE ADEUS

 

Eu não queria acreditar. No fundo, esperei que ele me dissesse o oposto do que eu pressentia. Se essa coisa de Orkut não existisse, talvez eu nunca soubesse.

Ele não era da minha turma. Era bagunceiro e não gostava de estudar. Mas sorria pra mim com vergonha. E quando queria me deixar constrangida na frente de todos, me chamava de branquinha, que é como minha mãe fazia. Meninos! Lembro dele batendo a régua na mão. Lembro dele cantando samba. Lembro de alguns jogos de futebol. Ele vermelho. Lembro de pouca coisa.

Nossas mães eram amigas. Conversavam na saída do colégio. Esperavam por nós. Mesma série. Os carros parados em fila dupla de vez em quando. Fala tchau pro seu amigo! Vocês não se falam na sala de aula?

A mãe dele era bonita e tinha um carrão. O cabelo comprido e loiro que pude rever nas fotos do álbum do irmão dele na internet. Ela continua bonita e ele seria tio.  Mãe, olha só! Uma foto do primeiro a aniversário da neta dela! Cadê ele? Deve estar em Londres. Todo mundo vai pra Londres.

Nos últimos dias a minha mãe vinha insistindo para procurá-los. Sinto tanto a falta da minha amiga. Como será que ela está? Vocês falam tanto desse Orkut, mas não usam pra nada! E eu já pensei que se tudo estivesse normal, do jeito que os deixamos ou que eles nos deixaram – estaria normal e só. Trocaríamos umas mensagens. Casou? Virou pai? Médico? Vem pra cá qualquer dia e a gente sai. Tudo normal. Mas não estava.

Se lembro de tão pouco, por que que chorei quando soube da verdade? Londres nunca existiu, não é? Você também não era o fotógrafo da foto da sua sobrinha. Sua mãe ficou bem? Lógico que não. Você se lembra do Alan, seu amigo? A mesma história, dez anos antes. Manda lembranças por mim?

Estamos aqui. De onde só saio quando chegar a minha vez. Espero que não tão cedo. Já faço uma idéia de como será. Enquanto espero, escrevo algumas bobagens pra passar esse tempo. E tomara que alguém perca o seu lendo. E tomara que sirva pra alguma coisa. Porque tudo é tão curto. Quando nos damos conta, temos 30 anos e nenhuma foto da viagem dos sonhos. Porque ela não aconteceu. Quando acordamos, já se passaram seis meses e você ainda não disse como ele estava bonito usando um gorro de lã naquela noite. Não quero de repente, me deparar com o quarto de um hospital e três meses de vida.

Vou desligar meu computador. Entrar no banho. Deixar minhas lágrimas se confundirem com a água do chuveiro. E vou pra rua. Preencher a vida com melhores instantes. Chega de cadeira. Peciso participar mais do tempo. Querido amigo, fique em paz. Se puder olhar por mim de vez em quando, eu deixo você me chamar de branquinha de novo. Sorrindo. Na tristeza de minhas poucas lembranças.

 

 

segunda-feira, 18 de maio de 2009

DESCANSAR A CABEÇA EM...

Descansar a cabeça doente em areias claras. Não sentir culpa ao mimar os olhos com as reverências das ondas. Pensar nele de vez em quando. Nos objetivos, sempre. E desejar a água de coco mais gelada. O silêncio acobertando inquietações. As conclusões erguendo-se abatidas. Uma esperança de que nada mude. Mas que graça teria se tudo permanecesse? Cansar-se do conforto produz estímulo. Temperar a vida buscando momentinhos felizes. Posso pensar mais um pouco? Enquanto observo o mar escurecer cheio de adeus. Posso? Posso saciar a mágoa com lágrimas? E posso protegê-las da exposição? Só quero encontrar alguma coisa que ainda nem sei. Mas venho sonhando, durante as tardes, que preciso. No momento, minhas boas intenções sofrem. Minhas mãos. As ideias. A segurança. E tudo pode parecer tão recente. O grito sem propósito. Eu não deveria ter passado a tinta por cima da angústia que me cerca. Mas que outro jeito conheço eu para escapar de discórdias? Quero continuar seguindo. De perto. Posso? Com algumas restrições. Revezo a atenção entre consequências e bisbilhotadas ao céu que se maquia de vermelho. E decido. Me interromper? Não posso mais.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

CORPO ALUGADO

Pediu café. Bastante leite, moço. O gosto tem me enjoado. Gravidez? Não, não estou. Tem açúcar mascavo? Aprendeu a usar com a amiga. Então adoçante serve. Ajustou o cachecol laranja no pescoço e encostou os joelhos. Pés distantes. Sentada. Observava a vitrine da loja. Será que já está na hora das compras de inverno? Gosta de comprar tudo o que precisa de uma vez e sofrer mais tarde quando se interessa por peças que descobre em pequenas lojas de bairros moderninhos. Não pode mais gastar. Os olhos perdendo-se nos tecidos. Será? Aquela calça verde ficaria bem nela. Verde lembra alguém que a detestava no colégio. Um menino passa tomando um sorvete de cheirinho bom. Está frio. Estou gorda. Não posso. Talvez a calça verde ficasse bem há dois meses. Tem abusado de refrigerante e frituras. Por que faz tudo errado? Nunca foi assim. O que a faz ignorar tanto o espelho? Trabalho. Deve ser. Trabalho jogado no lixo. Melhor do que unhas postiças. Quando o celular toca, um número que desconhece. Não é mais aquele número perturbador. A voz, também desconhece. Quem é?, repete. Do outro lado, o silêncio é esmagado pelo som da linha telefônica. O sorvete do menino derrete e lambuza seus dedos e boca. Gritam seu nome. Não é ninguém. Estão de brincadeira comigo! Decide ir pra casa. Eu não sirvo pra passear no shopping mesmo. Moça, onde paga o estacionamento? Droga, deixei cair café na blusa! Moça, essa mancha sai? Não quer jogar fora a blusa. Tem um encantador valor sentimental. E de repente se lembra daquele sorriso. Ainda? Olha para cima e enfrenta Você tem de concordar que aquele sorriso absorve. Olha para baixo e entristece Sim, um canto de sereia. Desiste da mancha. Pra quê? Não tem mais conserto. Aproxima-se do carro. Um bilhete escrito a mão. Preso no limpador de para-brisa. Conhece a letra. Sente uma náusea típica da lembrança dessa letra. Do último adeus. Dos próximos meses mudos. Segredo trancado em seu rancor. A letra molhada. Você chorou? Ou guardou em potes a minha tristeza e agora me zomba? Rasga o bilhete e despeja os pedacinhos no lixo perto da porta. Era só o que me faltava! Foge fisicamente do dono da letra. Há meses. Mas ele se espalha por ela. Em uma foto encontrada na gaveta. Numa lembrança ruim. No próprio jeito como aumenta o volume do rádio. Numa blusa que escolhe para passear no shopping e falece manchada de café. A blusa que usava. A blusa que atraiu um romance vencido. Livra-se dela ali mesmo. As pessoas parecem não se importar. Até quando você vai continuar impregnado em mim? Tento me desfazer de suas frações. Aos poucos. Ou montes. Com violência delicada. A próxima pode ser a minha alma. E eu vou te culpar. Com uma carta enorme e bem escrita. Desaparece! Você e essa letra borrada. Sua voz fria. Os toques ausentes. Tudo o que eu queria hoje era comprar uma calça verde e usá-la, sem que você tivesse alguma coisa a ver com isso.

VAIDADE EM CARNE VIVA

Orgulhosa eu? (irônica) Imagina. Quem foi que me disse isso? Esses dias mesmo. Ah, lembrei! Mas não quero contar. E quem foi mesmo que disse que eu sempre faço isso? De começar um assunto e interromper. Lembrei também! Não são as mesmas pessoas. Mas gosto das duas. Ou melhor, dois. Eles adoram me definir. Ainda bem. Porque eu mesma nunca sei. Quando interrompo um assunto é porque racionalizei a situação e prefiro perder a piada. Ficar com o amigo. Manter, digo. Sempre. Melhor fugir de aproximação. Objetivos carnais alcançados e o abracinho inocente de oi ganha outra interpretação. O beijinho ingênuo na rosto não deve mais dar as caras. Pode explicitar alguma coisa que talvez nem exista. Mas alguém percebe quando existe? Talvez finjam que não. Adoro fingir. Gosto de fingir que não estou nem aí. Quando alguém me olha, gosto de fingir que não é comigo. Se me olham feio, não é comigo mesmo. Uma vez fingi tão bem que quase. Deixa pra lá. Voltando ao meu orgulho. Às vezes eu guardo ele embaixo do tapete. Semana passada. Engoli o orgulho e fui até a porta te pedir um favor. Antes que você me visse, ele reapareceu não sei de onde. Me puxou pra dentro da festa de volta. Espero que ninguém tenha visto - o braço a torcer - porque me arrependi. Meio minuto depois. Fatal essa metadinha. Alguém desconfiou das minhas intenções? Boas. Deus me livre! Ninguém precisa saber. Você? Achei que soubesse. Finge que não? Por mim, tudo bem. Vou fingir também que nada aconteceu. Você gosta do meu abracinho inocente de oi? Talvez ele não fosse tão inocente. Eu disse talvez. E também disse fosse. Também não preciso te contar tudo. Você pode fingir que percebe de vez em quando? Quero dormir com a sensação de dever cumprido. De Fiz a minha parte. Fiz? Mesmo assim. Ainda acho. Como última tacada. Que deveria. Talvez. Antes de desistir. Só pra deixar mais claro. Pois pode ser que você não entenda. Te dizer que.

sábado, 9 de maio de 2009

PORQUE ONTEM FALAMOS BEM DE VOCÊ

 

Alguém por quem ainda não posso esperar entre olheiras denunciadas ao espelhinho do banheiro e as espiadas da janela. Cortina leve, transparente e vermelha. Como você. Obedecendo ao vento. Qual caminho ele te sugeriu esta noite? Ainda é cedo. Você sempre reestreia pela manhã. Distorcido e acompanhado. Gentilezas e promessas preenchendo a ruazinha de paralelepípedos. Metade de mim escondida atrás da cortina. Arquitetando um dia ocupar o seu lado direito e ignorar a minha janela vazia ao passar.

 

terça-feira, 21 de abril de 2009

 

é a minha palidez? minha melancolia? meus olhos brigando para se fingirem vazios? a cor que não me caiu bem?

domingo, 19 de abril de 2009

O ÚLTIMO PEDIDO DE ALICE

 

para ler ouvindo a respiração de alguém

Alice procurou debaixo do sofá. Lá, nem os pelos do cachorro de antes. Abriu as gavetas. Calcinhas, sachês, camisinhas e uma gilette manchada. Nem sinal. Dentro do diário, nada além de flores secas enfeitando confissões mudas. Olhou-se no espelho e espiou debaixo da língua. Só saliva. Cadê? Então, Alice saiu correndo de casa deixando a porta aberta. Os olhos caçadores. Pela rua. Descalça. O sol cobrindo os fios avermelhados do cabelo dela. Talvez lambe-lambes nos postes recuperassem o desaparecido! Talvez fosse tarde para uma ligação. O desespero ignorou o frio melancólico de outono. Gosta de usar cinza nessa estação. Alice parou na esquina. Tentou respirar. Impossível, quando o coração proíbe até a entrada do ar. O horizonte começava a borrar. Ainda tentou descortinar a paisagem para ver se encontrava. Mas ela partia para que o escuro também ocupasse o olhar. Então desmaiou. A cabeça estapeou a quina da calçada. Perto do esgoto, o sangue coloriu o cimento. Antes que se transformasse na lembrança empoeirada de uma mulher solitária, pediu baixinho: enterre o meu coração dentro do seu.

terça-feira, 14 de abril de 2009

AS SOBRAS

 

Meu corpo distante

minha entrega ferida

escondidos em mudez

segunda-feira, 30 de março de 2009

DEBAIXO DA TERRA


Confortar mãos antes da partida. Saber que pode ser a última. Como anunciado outras vezes. Tantas. Os olhos ameaçando saudade. E ninguém encontra palavras para amenizar as próximas semanas solitárias. Porque não existe necessidade. Um dia, a tristeza evapora mesmo. O vazio é curado com a rotina morna e distraída. A vida quase volta a ter sentido quando um cheiro te engana vestindo um sopro de vento no meio da noite. Seria o mesmo? Não. É sempre um cover mal feito da realidade. A realidade é embaçada. Deveria ser mais simples memorizar os bons momentos.
A despedida é difícil. Assim como a verdade. E o que anestesia a ausência são as fotografias que poderiam ter sido apagadas - mas o apego proíbe. A lembrança da certeza entre uma música e outra. A certeza que se desmancha com o fim das madrugadas. Com a primeira marcha do carro engatando. Com uma caixa postal.
Quando se resta, a única coisa que se tem a fazer é fechar os olhos e reprimir o reflexo público de um adeus dissonante.

quinta-feira, 19 de março de 2009

EU QUERO SOPRAR CHUVA


Para ouvir ao som de Vai Desabar, do Gero Camilo

Me lembro de quando fiz dez anos. Uma chuva, como as dessa semana, invadiu São Paulo. E eu me enchi de orgulho por honrar a fama da cidade bem no meu dia! Desde então achei que todo dezenove de março fosse "desabar água". Pro resto da vida. Da minha. A caminho do shopping, o barulhinho de que tanto gosto. Gotas de água e granizo esparramando-se pelo capô do carro. Competiam com trovões. Eu estava feliz. Na loja de brinquedos, a voz do meu pai ordenou. Escolha qualquer um! Mas só um! Ele sempre fez assim. Eu sempre obedeci. Nunca abusei da carteira dele. Nunca pedi o castelo da Barbie. Nunca pedi uma casa de bonecas de dois cômodos. Pedia canetinha. Papel de carta. Bercinhos. Já o meu irmão. Bom, deixa pra lá. Escolha qualquer um! pra mim nunca funcionou. Travo com possibilidades. Prefiro que o presente me ache e pronto. Talvez por isso ainda não tenha alugado um apartamento. Não tenha viajado. Também não gastei os vale-livros que ganhei do pessoal do Antro. Não escolhi o namorado. Por isso arranjei um emprego que nem procurei.
De poucas coisas tive certeza na minha vida. De poucas talvez ainda vá ter. Certeza é da morte. O clichê dos clichês. De que quero escrever até lá. De que gosto de me vestir de preto. De que vou acordar cedo amanhã. De que gostei do filme do Selton Mello. Só. Saí da loja de brinquedos com uma maquininha de fazer chocolate debaixo do braço. Não amo chocolate. Mas gosto como materialização de galanteios. Menos do que flores. Talvez não fosse aquilo que eu quisesse ganhar de aniversário. Ainda não descobri. Hoje, não pedi nada ao meu pai. Não precisa. Eu adoraria um apartamento. Mas ainda não consigo abusar da carteira dele. Também não sei o que pediria se ele me perguntasse. Dê o que quiser. Sempre respondo assim. Não sei mesmo. Pensando bem. Queria saber tudo. Queria pedir uma pendrive abastecida de todos os bons livros do mundo. Queria plugá-la na minha cabeça e no segundo seguinte saber mais que o Abujamra, o Contardo, o Gearld Thomas. Mas não vai acontecer. Então vou de degrau em degrau. Por qual começo? Ou melhor, continuo. Por qual? Essa quinta-feira ainda não choveu. O céu azulzinho se esconde atrás de uma fumaça carregada de choro. Se eu não voltar cedo pra casa, pode ser que não chegue a tempo de ouvir o meu Parabéns. A família vai estar lá. Meu sobrinhozinho. Até o cachorro da Paulinha! E eu vou sentir falta da minha Pérola, que fugiu há tanto tempo. Hoje à noite, vou soprar vinte e oito velas mergulhadas no bolo de brigadeiro da Tia Dulce – o mais delicioso do mundo, que ela faz pra todos os meus aniversários desde que nasci, porque não faço questão de nenhum outro (mais uma certeza da minha vida) – e fazer um pedido. Talvez chova nesse momento. O que será que vai se realizar? Juro que não vou pedir dinheiro. Nem mais mil pedidos. Vou pensar em algo que eu realmente precise. Antes que esse desejo me encontre. Enquanto as gotas de chuva atacam os vidros temperados da sala construída pelo meu avô. Eu queria muito ele hoje comigo. Disso sim eu preciso. Mas não vai acontecer. Talvez eu peça mais certeza nas decisões. E se depois do sopro chover de verdade, estou preparada para as consequencias.

sábado, 14 de março de 2009

AMIZADE POSTIÇA

 

Foto0269

Os excessos de uma vida noturna deram à luz Itacoatiara. Uma verruga horrível. Alojada na minha bochecha esquerda. Como as das bruxas. Incompetente até para nascer na ponta do meu nariz! E me disseram ontem que eu poderia ter sido queimada viva antigamente. Tudo porque a madame se instalou em local exposto. Eu, bruxa? Eu voando vassoura lua cheia? Eu gritando. Eu ardendo. Meus trapos virando cinzas em praça pública. Quem dera! No meu caldeirão patinhas de aranha, asas de morcego e vingança. Uma pitada de noz-moscada que a me mi piacce. Alguém prova? Sei que a Itacoatiara, apesar de horrenda, fez sucesso. Por causa dela, ganhei poemas de amor, convites para um musical e um suco de laranja na cara - eu juro que não estava olhando pro namorado daquela menina chatinha! Mas há três semanas essa verruga-mala só me incomoda. Mais nada. Há três semanas. Desde que desabusei da noite - dias seguintes mudos e taquicardíacos. Tivemos uma conversa sóbria e definitiva. Itacoatara e eu. Percebi: não é flor que se cheire. É verruga fedida e amarga. Ela insistiu em ficar. Eu proibi. Não dá, minha filha. É o meu rostinho lindo o prejudicado na história. Conheço ele desde pequeno. Desde que ele assustava os garotos no ginásio. Nada feito! Fora, Itacoatiara! Depois de tantos olhos repugnando-se com as formas grotescas dela - inclusive o meu, diante do espelho. Eu poderia tirar uma foto assim ou assado, mas essa verruga... - a maldita se foi. Deu pena. Ela foi sem querer. Foi sem querer! Esbarrei a mão esquerda ao lavar meu rosto e quando vi, a desagradável viajava pelo ralo da pia do banheiro. Açúcar para estancar o sangue. Que as baratas não sintam o cheiro! Adeus, minha querida coisinha feia. Deixe o meu rostinho lindo desabitado da sua companhia inútil. É claro que depois da partida dela, nunca mais recebi os poemas. Mas não tem problema. Amanhã compro um lápis de olho cor marrom e reproduzo Itacoatiara. Uma verruga falsa colada na minha cara de poucos amigos. E quando não me servir mais, passo o demaquilante e bebo uma Coca.

sexta-feira, 6 de março de 2009

PARECIA DE AQUARELA

 

O insetinho queimando dentro do lustre. Um barulho a menos para desconcentrá-lo. De quê? Há horas olha para o quadro da irmã morta. Lembra-se do vestidinho lilás da foto. Foi a mãe quem lhe deu em um aniversário. Ela odiava as mangas bufantes. Reclamava Mãe, elas pinicam o meu queixo! Mães de pequenas princesas não ouvem. Mães de miniladies só enxergam e vangloriam-se. A menina mais linda do prédio! Como se a franja bem cortada e o cabelo louro – natural sim senhora, a mãe ofendia-se – fossem medalhas de honra ao mérito. As perninhas brancas ainda lisas, lisas. O seio vazio sufocado no tecido. Como seria se ela ainda estivesse aqui? Dormindo no quarto ao lado. Ainda pode ouvir sua respiração. Ainda escuta o choro dela de vez em quando. Esta noite não. Esta noite se lembra do olhar vago que ela tinha. Sempre deslizando anônima pela casa. Sua beleza empanada por alguma coisa que aos sete ainda não se sabe explicar. Ele mesmo, hoje com seus vinte e três, é incapaz de definir sentimento. Raiva, ciúme, alegria e ponto. Ela gostava de brincar com o bercinho desocupado. Nana nenê que a Cuca vem pegar. Uma vez roubou o canivete dele. O canivete virou boneca dormindo no bercinho. Nana nenê. A mãe não fala dela. Nunca falou. No velório, não quis abraços. Dizia Não se preocupem comigo. Não olhou na cara dele. No velório, ficou segurando as mãos dela. Fria. Pálida. Pequena. Mãos de miss de tão macias. Não deixou ninguém chegar perto. Ele sentado na cama continua olhando o quadro. Chora desespero, chora ausência. Enxuga as lágrimas e abre a primeira gaveta da cômoda. Escondida entre as roupas íntimas dele, a calcinha de rendinhas verde. Aproxima-a do rosto e chora amor, chora desejo. Goza saudade.

 

domingo, 1 de março de 2009

QUER OUVIR?

Tinha um show pra ir. Bacana. Falar bacana voltou a ser brega? Desde quando? Tinha esse show. De uma cantora que usa saias de fada. Usa saias de fada e fala palavrões quando o guitarrista sola. Eu gosto. Já subi no palco e dancei entre as pernas dela. Ela lambeu meu rosto. Imagina, é cena. A saliva dela é quente e deixa cheiro de camomila. Existe pasta de dente sabor camomila? Existe dente estressado? Deve ser de gente que tem bruxismo. Não. Não fui ao show. Claro que não! Afinal estou aqui começo de madrugada te ligando. Poderia ter ido, né? Deveria? Não quis. O lugar é muito cheio. Escuro também. A música estaria alta. Hoje eu só queria ouvir pessoas. Qualquer merda que quisessem me falar sobre um assunto de minha escolha. Eu também sei escoher, sabia? Lógico que não! Ninguém me falou nada. Meu telefone também não tocou. Ele tem tocado pouco. Sabe o que eu fiz? Apaguei todos os números da agenda. Não é bobagem. Sei de cor o telefone de quem importa. O resto ali só ocupava espaço e me fazia sentir popular. Puxa, quanta gente eu conheço. Sabe, que nem aquele povo que tem mil amigos no orkut? Adiciona até o frentista que enche o tanque toda manhã atrasada de segunda-feira. Quanta gente eu conheço... Posso contar nos dedos de uma mão com quantas eu já tive conversas significantes e quantas delas só querem se fazer gente em uma conversa. Não ligam pro que você é, nem pro que tem a dizer, suas dúvidas, angústias. Eu tenho que ficar lá fingindo interesse na vida delas. Pra não ser desagradável. Só estão preocupadas em contar e contar e contar . Eu, eu, eu! E quando conseguem de você o que querem, o celular nunca mais toca. Então apaguei. Apaguei logo a agenda toda. De A a Z pra não cair na tolice de mensagenzinhas ébrias de fins de noite. Daquelas que você, quando acorda, pergunta se sonhou ou aconteceu mesmo. E sempre aconteceu. Você não sonha que está beijando o seu amigo que não sai do seu pé e vive implorando por uma noite ao seu lado. O coitado se humilha tanto como você no momento das mensagenzinhas. Humilhante. Nunca retornam. O objetivo foi cumprido. E você pára. Mas também só dura uma semana. Até você beber de novo e acordar pensando se o vômito e o tapa na cara de um fulano de quem você está com raiva eram reais. Eram? Fala que dessa vez não, por favor. É lógico que eram! Tem vômito na sua bota! O dia amanhece amargo. E uma vontade de ficar sozinha acompanha a cara péssima borrada com rímel. E por que eu não fico? Por que não tranco a porta do quarto e coloco um samba bem melancólico e deixo a tristeza vazar? Marcando um caminho negro em meu rosto. Caindo. Caindo. Caindo... Por que eu não vou ao cinema ver um filme que acabe comigo? Mais um pouco. Só pra saber que existem pessoas em piores situações - mesmo que de mentirinha. Por que não vou pra uma igreja rezar? É. Confessar. Entrar naquela cabine, inventar um monte de pecado e colocar a dor - única verdade - no meio deles. Quantas Ave Marias são necessárias para que se perdoe um amor? Deus perdoa a força de um sentimento que deveria ter morrido há tanto tempo? Se eu acendesse treze velas de sete dias e pedisse para esse encosto não me tocar delicado nem olhar para dentro de mim - sua vaidade sugando meu coração - eu estaria livre? Não fui ao show. Quer saber? Eu ia. Ia sim. Eu pensei que estar muda incentivasse conversas. Mas não. Ninguém falou comigo. Ninguém me falou nada. No show eu não precisaria falar. Só dançar e quem sabe receber um beijo pra calar a minha mudez. Depois de um beijo não há como não sorrir alguma coisa. E o sorriso é voz. O sorriso depois de um beijo é a voz de uma felicidadezinha. O sorriso diz obrigada à pessoa e cochicha no seu ouvido tá vendo? u still rock girl! - mesmo que depois a insegurança agarre suas orelhas e grite é só uma noite! e você diz que anota o telefone dele. Mentira. E se convence é só uma noite... Tem quem me queira só por uma noite. A maioria quer. A maioria quer todo mundo só por uma noite. Não "pelo menos" por uma noite. "Só" por uma noite. E então a dúvida: render-se ao jogo ou não se trair? Eu juro que queria enxergar esse assunto com mais leveza. Claro que eu juro. Você não acredita em mim? Pois é, eu sei. Não consigo. Deus me perdoa? O Deus de hoje eu tô falando. Esse aí que usa internet e aceita divórcio e camisinha. Ele perdoa esse meu sentimento que persiste? O fato de eu não ter amores efêmeros? Ele fala de amor próprio? Você sabia que eu acho ridícula essa história de amor próprio? Sabia, né? Eu tô ficando repetitiva, eu sei. Mas não dá pra exigir amor próprio no meio de uma paixão. A pessoa não sabe nem distinguir quando tá sendo inconveniente, imagine ter noção de amor próprio. Parece expressão de auto-ajuda, né? E por que Deus não libera mais algumas coisinhas pra gente? Tipo aquele mandamento de Não Matarás o Próximo. Quando a coisa deixa de existir a gente vai esquecendo. Esquecendo. Esquecendo... Eu não lembro mais da melhor amiga da oitava série. Tão importante. Não, ela não morreu. Mudou com a família pro interior de Goiás. A gente se correspondeu por cartas algumas vezes. Depois foi ficando chato. Ela não fazia mais parte da minha vida. Pra que contar coisas pra estranhos? Foi o que pensei em fazer hoje. Uma espécie de redenção? Mas a pessoa tem de ser estranha a você mesmo. Daquelas que você encontra na rua e despeja todos os problemas, como fazem os ex-habitantes egocêntricos da agenda do seu celular, que não te escutam. Um dia eu fiz isso, sabia? Eu tava triste. E todo mundo começou a perceber. Achei melhor sair de perto e fui pra dentro do carro. Eu tinha visto esse cara de longe, me deu passagem quando passei esmurrando o chão com o meu tênis. Ele continuou me olhando no carro. Que paciente, pensei. Ou psicopata? Depois de desabafar tudo o que eu tinha pra minha solidão, arrumei o cabelo e fui pra rua de novo. E não é que o rapaz veio conversar comigo? Num papo de que nunca traiu a namorada. O que será que ele tava querendo, heim? Como passei a odiar gente que apela pro perfil de bom moço, levantei e deixei ele lá falando de casamento e filhos. Mas antes fiz ele ouvir o motivo do minha decepção. Um massacre! Gente ingênua merece um pouco de zombaria. Te juro. Ficou sentado na sarjeta com ar de bobo. Eu falo, essa minha carinha de boazinha confunde mesmo. Mas eu gosto, sabia? No fundo devo gostar. É dúbio. Ninguém sabe o que você pensa. Até você se apaixonar - e ainda bem que isso é raro - e perder o controle de tudo. Nossa, como tá tarde. Acho que agora me deu sono e quero desligar. Oi? Se eu apaguei seu telefone? Sim. Te disse que apaguei de todo mundo. É que eu tinha anotado a caneta em algum lugar. No envelope da minha conta de celular. Veio alta. É isso mesmo. Você é do grupo que eu não sei o número. Daqueles que só sabem falar de si mesmos. Já me sinto vingada. Obrigada. Boa noite.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

MENINOS!

Era o menino mais bonito do colégio. Tinha uma cicatriz no rosto, na altura da maçã esquerda, e os olhos de peixe morto. Era artilheiro do campeonato de futebol e beijava a camiseta com grosseria e catarro a cada gol marcado. Corintiano. Na sala de aula, sentava-se nas carteiras do fundo e tirava notas baixas em Estudos Sociais. Faziam camisetas com a foto dele e colocavam-se inimigas e próximas na arquibancada. Ele agradecia a atenção descarada com carrinhos, faltas, palavrões e gols. Tantos gols que alguns o detestavam. O restante o amava. Vez ou outra, durante o gozo da vitória, mandava um beijo no ar para as torcedoras. Apenas um. Que o fisgasse, como uma boa goleira, e guardasse debaixo da blusa entre o seio e o sutiã, qualquer uma - ou a mais disponível. No dia seguinte um bate-boca vazava do banheiro até o corredor das salas de aula. O beijo é meu! Não, foi pra mim! Não se engane, ele já me confessou. Em meus sonhos... Nunca revelou o nome das destinatárias. Aos nove anos, era rei. A última palavra era dele. Queremos show de música, em vez de teatro. Cuidaremos da barraca do coelho na Festa Junina. Foi o bedel! Amanhã não venho. Os professores e até a diretora sabiam o seu nome.

Alice se encantava com tanta popularidade. Alice. Míope. Quatro graus no direito. Cinco no esquerdo. Alice dez em matemática. Fileira da parede, mesa um. Alice morrendo de vontade de pentear o cabelo da professora junto com as outras meninas. Alice desenhada na lousa da sala. Nariz e aparelho de dentes exagerados. Alice poucos amigos. Alice virgem de lábios, de mãos e de despertar paixões. Mas meiga. Sua meiguice acreditou nele durante o recreio cheio de alunos barulhentos no Pátio da Figueira:

- Alice!

O sangue dela tremeu. O menino mais bonito do colégio sabia o seu nome. Quieta, quente e com dificuldade para respirar, olhou para ele em destaque rodeado por seus seguidores.

- Alice, você tem telefone?

Ele ligaria à noite? Confessaria que o destino de seus beijos voadores é o rosto dela? Poderia ensinar matemática para ele toda quarta-feira depois das aulas e a mãe lhes seviria leite com achocolatado e bolachas. As meninas morreriam de inveja. Todas. Principalmente aquelas irmãs vindas do interior. Lindas, mas tolas. Talvez ele gostasse de garotas diferentes da maioria das meninas do colégio. Umas chatas. Garotas como Alice. Que não usam brincos e não menstruam. Que esmagam folhas secas e sonhos entre as páginas de seus diários. Até aquele dia não se lembrava de ter ouvido o seu nome preencher a boca de alguém do colégio. Mesmo os profesores o trocavam com frequencia irritante por Aline. Entusiasmada com a idéia de alguém achá-la especial, sorriu. A luz do sol trombou com o aparelho fixo - enfeitado com elásticos amarelinhos - e metralhou reflexos, cegando a platéia que prestigiava o primeiro flerte dela. Misturados a ansiedade, dentes, metal e luz, números:

- Dois nove oito vinte e três...

Foi interrompida por:

- Então vende e faz uma plástica!

e risadas. Alguns da platéia caindo no chão, pondo-se mais ridículos do que ela. Dedos apontando Alice. Ela escondendo a vergonha na cabine de um banheiro pichado. Alice tomando falta na aula depois do recreio. A raiva arranhando seus pulsos. O futuro de Alice sangrando. O futuro de Alice sem aparelhos celulares.

     

sábado, 14 de fevereiro de 2009

DEIXANDO A INDIFERENÇA MAIS BONITA

 

se um poema ainda não nasceu é porque está indiferente. e jura: não achou que fosse possível. justo ela que aproveita-se do choro atrevido, que explode em uma calçada no caminho de volta para casa, para desabafar a pedaços de papel. ela que gosta da condição de não pertencer a nada e nada ter que a pertença. que anseia justamente pelo que nunca será seu, apenas para continuar tomando vento pelas madrugadas sem avisos, relatórios e manifestos conjugais. ela vai dormir esta noite ironizando o fato de que acordar ao lado de um estranho é menos estranho que acordar ao lado de Ñy&ll.  e pensará se ele já desejou presenciar os olhos de Üb@ revelando o tom verde em uma dessas manhãs cheirando a álcool, cigarro e ego. não vai dormir. mais uma vez. como tem acontecido sempre que se compara a outros objetos tão parcialmente disponíveis quanto ela mesma. vai se emocionar diante de qualquer jorro de ignorância estampada em uma TV de tardinha. um grito de socorro de seu próprio corpo, que ela vai ignorar. talvez questione  o porquê disso tudo para as paredes de um quarto silencioso e seu. mas escrever não vai. escolherá fechar os olhos e cantar uma música alegre para mascarar a decepção que não a surpreendeu tanto quanto não amá-lo mais. e jura novamente: não achei que fosse possível. 

 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

QUANDO ALICE VAI PRA RUA O ESPERADO ACONTECE

 

Se Alice gritasse por André, quando se propôs a uma corrida estúpida para alcançá-lo na escada, ao mesmo tempo que Lídia, o dia amanheceria chuvoso e não apenas nublado, pois o clima muda de acordo com o humor dela. E a Via Láctea gira ao redor do seu umbigo.

 

sábado, 31 de janeiro de 2009

SOBRE JAZZ, MULHERES E O VAZIO, VOCÊ SABE.

 

Então na madrugada de uma segunda-feira eu me sentei à mesa com eles e ouvi, finalmente, sobre jazz e mulheres. Mais sobre mulheres do que jazz. Sobre a bunda delas. Babavam por gostosas alheios ao meu julgamento. Ou por uma necessidade de exibir indiferença por mim. Para autenticar qual era o meu lugar - de onde, mal sabem eles, nunca saí. Mantive-me calada o tempo todo. Eu queria ser apenas um porta-copos bêbado. Sorri. Aquele saborzinho atraentemente estranho de novos terrenos.

Não falaram do vazio. O tema nem chegou perto de suas salivas alcoolizadas como profetizado. Mas estava em mim desde a manhã anterior, quando olhei para ele dormindo, despido de sua verborragia charmosa. Quando pensei que, acordar ao meu lado, pudesse não ser exatamente do jeito que ele prometeu. Quando resgatei meus brincos do carpete e fui embora pisando ainda em meias silenciosas para não descobrir a verdade. Quando pensei que nem a mudez de seu sono, cortada pelos carros da avenida, me amparava. O vazio antecipando-se. Implorando para ser preenchido por alguma sessão de cinema que durasse mais de um mês. Por bobagens doces e turbulentas como ter o indicador dele desenhando espirais em meu ombro esquerdo.

Ouvi sobre mulheres. Gostosas. Muito mais do que eu. Pensando que sempre vou me sentir a bunda (ou a falta dela) desejada do bar se continuar insistindo em óbvias derrotas. Em desprezo atenuado com bandeiras brancas levantadas no final da noite. Em fugir de um  tapa na cara quando o dia amanhece e um simples olhar te responde o que você não tem coragem de perguntar. O tão suplicado fim. Raros e felizes instantes desintegrados para sempre pela fadiga de uma corrida cega.

O vazio eu não entenderia se me acompanhasse em outro momento, em outra mesa. O vazio não existiria sem manhãs como aquela em que o deixei dormindo. Em que o deixei.

 

sábado, 17 de janeiro de 2009

DESCULPE, MAS PRECISO IR

 

Desperdiçar meu silêncio

desligar convites

desistir de estrelar confrontos

desanunciar sofrimentos

despedaçar o tempo - remontá-lo, para que o início impere

desprezar a verdade dita - que morre na ausência da saliva

desdenhar provocações

desconhecer ilusões

descalçar certezas, torná-las conquistas amenas

desaparecer

des parecer

      par

de  pa  ce

des

d

.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

HOJE NA BRIGADEIRO

 

Não foi a sensação de liberdade por caminhar em uma tarde de quarta-feira. Não foi a música de que mais gosta tocando na lojinha de velas perfumadas. Não foi o sorriso que recebeu de um esbarro de olhares. Foi a placa na porta de um hotel. Precisa-se de arrumadeira urgentemente. Quase subiu as escadas. São quantos quartos? E para a recepção de madrugada, estão precisando? Lembrou-se de que o Zona Azul venceria e deu as costas a essa possibilidade. Subiu a avenida suspirando por mais caprichos (?) que a tirassem de sua bolha.

sábado, 10 de janeiro de 2009

QUANDO AS ANGÚSTIAS JÁ NÃO CABEM

 

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Fugiu, porque o resto do mundo parecia mais interessante. Foi de madrugada, sem se despedir, para que ninguém a convencesse do contrário. Até hoje me manda cartas.

Um dia ainda bebo da mesma coragem.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

CELULAR NÃO COMBINA COM MADRUGADA

 

Ninguém soube dizer se a luz que iluminou seu rosto, escurecido pela fumaça do ambiente, vinha apenas do visor apitando uma fase mais tranquila. Talvez tenha sido a alegria que seus dentes denunciavam. E apenas uma pessoa poderia explicar o motivo da inquitação dela diante de tantas garrafas de cerveja chique. Por aquele momento ficou alheia à poesia dos diálogos que esquentavam a garganta de todos. Ele, que já se obrigava a sonhar em cama quente e solitária, pensou nela antes de fechar os olhos e também quando os fechou. Ela sorriu, sentindo a paz de que tanto precisou. A paz que antecede o furacão dos próximos dias de angústias previstas.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

NOSTALGIA

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foto: priscilanicolielo

Gosto de dias assim. O sopro frio ocupando um céu azul claro. Nuvens raras. É meio de ano no hemisféro sul. E eu tinha um edredom, uma varanda e vinho tinto. Você, minhas mãos. Do canto, o seu bambu espiava, enterrado ao lado de uma canabis. Fui feliz, agora lembro. E serei de novo ao lado de outras companhias, se houver mais dias como esse de que gosto tanto.

Feliz Ano Novo e desculpe por estragar o último que passamos juntos.

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

EU ME OUVIRIA...

Se ela encantar os seus olhos, desvie.

Se segurar a sua mão, desconfie.

Se cobrar decisão, peça refrigerante - porque a cerveja responde sem te consultar.

Se ela se aproximar, bloqueie o desejo. Ocupe a boca com desprezo.

Quando for embora, reze para que ela não desista.

Segundas chances são fraquezas do lado sonhador.

domingo, 4 de janeiro de 2009

O ANO NOVO



Nada tirou tanto o sono de Alice quanto seus pensamentos competindo com roncos e grilos na escuridão de um quarto com beliches. Pensamentos que, se ela contasse a alguém, tapariam com as mãos a paciência dedicada nesses dois anos. Encheram-se. Não há mesmo o que se fazer. Ela sabe. Só sonhar. Acordada. Inverter o pesadelo da crueldade em que vive. E ao inverter, ao sorrir cada vez que o retrato sobrevoou seu travesseiro nessas noites, chegou a uma conclusão. Alice vai aprender a acariciar esbarros com gentileza e distância. Daqui pra frente. Ou só neste ano. Uma experiência que, quem sabe, consiga lapidar tanta intensidade quando ouve certos passos preenchendo o corredor. 
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