terça-feira, 2 de dezembro de 2008

*

 

Continua!

 

Eu deixo

Alivia

 

Depois, pensa:

Ninguém é só branco

Nem todo abraço é santo

Todo eu te amo é sincero

até o dia seguinte

porque o medo

ordena recuo

E assim

fica-se

esperando do outro

flores

que não caem

poesias

explícitas

elogios

que não afogam

o mal-entendido

um desvio

e trilham o fim

desde o início

 

Continua...

 

*

 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A MENINA ENTRA NO SALÃO

A menina entra no salão
Tropeça em bebida, amasso e balanço

Em cima da mesa, ele dança
A fumaça de cigarro enfeita

Ela espia do canto

A música evapora

Vibram as mãos dele
e os olhos dela

Permanece covarde
entre beijos alheios e risadas
até acordar

domingo, 23 de novembro de 2008

UMA CARTA

 

   Quando você voltar, eu vou arremessar no seu cinismo todas as flores que ganhei. Você vai espanar as pétalas que escorreram para o ombro e partir. Quando estiver a cinco passos de mim, vou cantar aquela música que você não decora. Você vai voltar e provar que prestava atenção quando eu te ensinava. Eu vou ouvir, séria. Vai me olhar com a mesma expressão de quando leva bronca, pegar a rosa mais despetalada do chão e entregá-la a outra, como você sempre faz. Eu vou desligar a sua cena e tomar o copo de cerveja para não mostrar que minhas mãos tremem. Vou esperar no balcão alguém com um ramalhete. E quando você voltar eu vou atirar mais flores na sua cara e depois que você cantar pra mim, eu volto pra você. Você sabe. Eu volto.

sábado, 22 de novembro de 2008

*

Assim que coloquei o pijama, o telefone tocou. Ana demorou para falar alguma coisa e quando disse:

- Pedro,

Mais silêncio e:

- Pedro, boa noite.

Desligou.

Acho que ela não queria me dizer isso.

 

*

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

*

Levanta-se da cadeira e passeia devagar pelo escritório.

- Que delícia andar no meio da sala! Ela parece mais vazia hoje.

Só que a sala sempre esteve daquele jeito. Com o mesmo cheiro de mofo, a mancha no carpete perto da tomada, cadeiras enferrujando e papéis usados. Uma insatisfação nauseante estampa o rosto dos funcionários e a água do filtro parece vir de algum prato de samambaia. O homem barrigudo vestindo camisa de listras vermelhas e pretas rosna para preencher o vazio que a frase deixou.

Volta à cadeira, seu celular toca. Colore o ambiente com o mesmo sorriso patético de dias seguintes.

*

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