sábado, 9 de maio de 2009

PORQUE ONTEM FALAMOS BEM DE VOCÊ

 

Alguém por quem ainda não posso esperar entre olheiras denunciadas ao espelhinho do banheiro e as espiadas da janela. Cortina leve, transparente e vermelha. Como você. Obedecendo ao vento. Qual caminho ele te sugeriu esta noite? Ainda é cedo. Você sempre reestreia pela manhã. Distorcido e acompanhado. Gentilezas e promessas preenchendo a ruazinha de paralelepípedos. Metade de mim escondida atrás da cortina. Arquitetando um dia ocupar o seu lado direito e ignorar a minha janela vazia ao passar.

 

terça-feira, 21 de abril de 2009

 

é a minha palidez? minha melancolia? meus olhos brigando para se fingirem vazios? a cor que não me caiu bem?

domingo, 19 de abril de 2009

O ÚLTIMO PEDIDO DE ALICE

 

para ler ouvindo a respiração de alguém

Alice procurou debaixo do sofá. Lá, nem os pelos do cachorro de antes. Abriu as gavetas. Calcinhas, sachês, camisinhas e uma gilette manchada. Nem sinal. Dentro do diário, nada além de flores secas enfeitando confissões mudas. Olhou-se no espelho e espiou debaixo da língua. Só saliva. Cadê? Então, Alice saiu correndo de casa deixando a porta aberta. Os olhos caçadores. Pela rua. Descalça. O sol cobrindo os fios avermelhados do cabelo dela. Talvez lambe-lambes nos postes recuperassem o desaparecido! Talvez fosse tarde para uma ligação. O desespero ignorou o frio melancólico de outono. Gosta de usar cinza nessa estação. Alice parou na esquina. Tentou respirar. Impossível, quando o coração proíbe até a entrada do ar. O horizonte começava a borrar. Ainda tentou descortinar a paisagem para ver se encontrava. Mas ela partia para que o escuro também ocupasse o olhar. Então desmaiou. A cabeça estapeou a quina da calçada. Perto do esgoto, o sangue coloriu o cimento. Antes que se transformasse na lembrança empoeirada de uma mulher solitária, pediu baixinho: enterre o meu coração dentro do seu.

terça-feira, 14 de abril de 2009

AS SOBRAS

 

Meu corpo distante

minha entrega ferida

escondidos em mudez

segunda-feira, 30 de março de 2009

DEBAIXO DA TERRA


Confortar mãos antes da partida. Saber que pode ser a última. Como anunciado outras vezes. Tantas. Os olhos ameaçando saudade. E ninguém encontra palavras para amenizar as próximas semanas solitárias. Porque não existe necessidade. Um dia, a tristeza evapora mesmo. O vazio é curado com a rotina morna e distraída. A vida quase volta a ter sentido quando um cheiro te engana vestindo um sopro de vento no meio da noite. Seria o mesmo? Não. É sempre um cover mal feito da realidade. A realidade é embaçada. Deveria ser mais simples memorizar os bons momentos.
A despedida é difícil. Assim como a verdade. E o que anestesia a ausência são as fotografias que poderiam ter sido apagadas - mas o apego proíbe. A lembrança da certeza entre uma música e outra. A certeza que se desmancha com o fim das madrugadas. Com a primeira marcha do carro engatando. Com uma caixa postal.
Quando se resta, a única coisa que se tem a fazer é fechar os olhos e reprimir o reflexo público de um adeus dissonante.

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