quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

CONFESSE: VOCÊ JÁ ESPIOU UMA TITITI


A pedidos, vou colocar aqui a primeira coluna que escrevi para o Guia da Semana.


Vou dizer aqui que, sim, como com os olhos. Não me importo de mastigar pepinos, o menos predileto, desde que cortados estrategicamente para parecerem palitinhos da Chips, igualmente mergulhados em sal grosso. Nham. E é exatamente esse fator que me leva a fazer compras em supermercados silenciosos, característica típica de classe média pseudo-intelectual. Pagar pelas compras de mês nele não podemos, mas onde mais encontraríamos o glamour de passar longos minutos à procura do vinho perfeito? Hoje tomo um chileno seco ou experimento aquele argentino tinto? Merlot não, como já nos foi avisado em “Sideways”. E digo mais: bolinho de petit gateau ali, numa gôndola? Gente, em Santana não temos isso. Só fui descobrir depois da faculdade, quando comecei a freqüentar esses supermercados que era possível até paquerar alguém dentro dele. Nada contra os outros, é que senhorinhas de vestidos floridos e mães de família barulhentas comprando cerveja pro marido não fazem o meu tipo.
Depois de escolhido o vinho e comprada a mussarela de búfala com tomates secos, nos dirigimos à fila. E graças a Deus ela nem demora tanto. Não tem cartão que não passa. Não tem que consultar preço, porque na gôndola dizia que era um centavo mais barato. Não tem filho fugindo pro estacionamento. Não tem a Dona Apolônia contando as moedinhas para facilitar o troco. Não tem a caixa tendo que embalar as compras. E nenhuma criança malvada te espirra água (graças à Deus gelada, porque se fosse quentinha, credo, eu teria gritado com ele mais alto e mais grosso, além de ter escolhido um palavrão pior para xingar aquele moleque atrevido).
Apesar de todas as discrepâncias de um ambiente para o outro, um item desse grande e divertido evento se iguala: revistas de fofoca. Ahá, agora estamos falando a mesma língua, não é verdade? Confesse: você já espiou uma Tititi. Esse tipo de leitura antes de pagar as contas é necessário. Paridade nos supermercados. Tem que ter. E como todo mundo tem um certo quê de vizinha, eu também adoro dar uma espiada na vida alheia. Claro que critico o Big Brother, afinal ele dá a possibilidade de você ser uma capa da Contigo! sem uma novela das oito no currículo, mas não assistir seria como não ler o Estadão. Brincadeiras à parte, porque uma crítica ao Big Brother não deve ser tão rasa. Não queremos a superficialidade, certo? Além de tudo, é claro que tenho a opção de desviar os olhos do baixinho da Kaiser com a Carina Bacchi para “As dez coisas que os astros me revelam para 2007”.
Eu não compro Caras, que já foi mais granfina, mas meus olhos bem crescem para saber quem é o novo namorado misterioso da Flávia Alessandra ou descobrir porque a Deborah Secco chora ao embarcar para Nova York. Parêntesis: só se for de emoção. Alô! Vera Loyola abre as portas de sua casa pela primeira vez depois da morte de Pepezinha.
As manchetes são as verdadeiras sustentantes da carreira de sucesso dessas revistas. Adoro todas! O emprego mais divertido com certeza é o de redator de manchetes das capas da Caras e de todas as outras. Se alguém aí for do RH de alguma delas, por favor, aceitem meu humilde CV. Adriane Galisteu brilha ao lado do noivo Roger na inauguração de sua grife em São Paulo. Somos apenas bons amigos, Marrone nega romance com Cristiana Oliveira. Juliana Paes rouba a cena na festa de estréia da nova das sete. Aquelas que só falam de novela também são muito boas. O espírito de Nanda aparece para Clara. Fulana resolve perder a virgindade com Ciclano, apesar de amar Beltrano. E o povo compra. E compra, viu. É quase a sobremesa do banquete supermercado. É certo que naqueles, que hoje freqüento depois que virei metida e que vendem até taças coloridas lindas de vinho e água, fica meio complicado de acrescentar a Minha Novela, embaladinha no saquinho transparente, ao carrinho. Será que é por isso que existe tanta cleptomaníaca em Higienópolis? Claro, porque rico não rouba, tem doença. Perua também gosta de brilho e não sai por aí pegando emprestado o chocolate dos outros, como a Christiane Torloni quando era mãe da Mariana Ximenes de cabelo curto e preto.
Seria mesmo um sonho viver o conto de fadas das máquina fotográficas até quando você vai ao banheiro ou toma uma cerveja a mais e acorda na sarjeta sendo lambida pelo cão mais vira-latas do Brasil? Anti-ético? Sim, mas de todo mundo que ficaria sabendo, apenas uma acharia ruim e talvez te processasse por abuso de autoridade, invasão de privacidade, perjúrio, montagem no Photoshop e reconstituição do crime por atores de quinta e mal pagos. Ok, as vendas pagam a indenização. E ainda sobra para uma festa regada a champanha.
Como é possível depois de todo esse sucesso, dizer que o povo brasileiro não lê? Um dia conversando sobre livros com a minha tia, a pessoa mais engraçada que conheço e que me dá sempre dois presentes no Natal, um de tia e outro porque também é minha madrinha (isso se repete também com ovos de Páscoa), ela me abriu os olhos: não gosto de ler livro, mas eu leio sim, olha. E apontou a Tititi de março com a Grazy BBB Who? Na capa. Não é tudo?

Um comentário:

Josie disse...

Adoro a forma como observa e descreve o mundo, uma coisa meio pisciana, um olhar de quem tbém se sente num mundo emprestado, mas, que gosta do que vê e sente.
Ahhh, esses supermercados...Talvez uma das melhores diferenças entre minha vida aqui e lá, assim como a Av. Paulista, cinema de rua e aqueles butecos sujos.

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