quarta-feira, 3 de setembro de 2008

CONVENIÊNCIAS

Davi olha para mim e começa a chorar. Eu já achei mais bonitinho quando a respiração dele dá soquinhos e as palavras mal saem. Hoje penso puta que pariu! homem feito desses chorando que nem gatinho abandonado em terreno! Davi pisaria em mim se desconfiasse de alguém vindo em nossa direção numa rua deserta. Davi me aperta forte de susto no meio de um filme sangrento. Quando as luzes se acendem, ele me larga, ajeita o cabelo e sai da sala a passos apressados como se me esquecesse ali dentro com os assassinos. Davi gosta de se vestir bem. Roupas de marca, ele diz isso pelo menos uma vez por dia, ao telefone, nas minhas horas de almoço. Ele assistindo televisão: Leão Lobo. Para saber os lugares que as celebridades freqüentam.

Eu voando num balanço de playground. Sentada no colo de um rapaz. Nós dois em uma tábua de madeira lascada. O lugar vazio. Para frente e para trás. Davi longe. Nós dois alternando os olhares entre o céu e nossas latinhas. A cerveja gelando a garganta do rapaz. Assanhando a mão dele. Eu de saia branca. Nós dois, sob os olhos de Davi e a cerveja alimentando a terra do playground. A latinha caída de espanto. Davi no playground. Olhos perplexos começando a inundar diante do balanço.

Davi pede que eu desça do colo do rapaz. Enxuga as lágrimas e segura a minha mão. Acaricia o meu cabelo cor de mel. No apartamento, pede que eu tome um banho.

Davi na sala. Bermudas jeans e chinelo de couro. Assiste ao início da novela das oito. Pede que eu me sente ao seu lado. Não fala sobre o balanço, a cerveja, a mão assanhada dentro da minha saia. Davi consegue enterrar essas imagens no chão do playground. Não vai perguntar quem é o rapaz. Olhou para os sapatos dele e sorriu satisfeito, eu percebi. Davi não paga a conta de luz e não é dono do nosso carro. Davi pode suportar o que viu. Davi pode comprar a cerveja da próxima vez no meu cartão. Ele boceja e vai para o quarto. Acordará só amanhã às onze. Antes de bater a porta, pede que eu deixe o cheque em cima da mesa de jantar. Em branco. Como sempre faço.

2 comentários:

Vanz disse...

puta-que-o-pariu, priscila! tá muito é du bão!

Priscila Nicolielo disse...

E o moço do balanço é uma coisa! Brincadeira...

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