quarta-feira, 19 de setembro de 2007

CASA NOTURNA PARA DOIS

(texto que entraria em CIAO*)

 

Você chegava às vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. Tirava os sapatos e os deixava ao lado da porta de entrada, embaixo do interruptor de luz. Andava até a sala e desligava a TV. Eu dormia enquanto te esperava. O sono me vencia. Tenho certeza de que você me olhava e se irritava por eu ter adormecido no sofá mais uma vez. Sem me acordar, ia para o banheiro abria a gaveta e pegava todas as caixinhas de remédio. Eu procurava deixá-las vazias e sempre quis estar ao seu lado quando você as fosse abrir. Ficava tão bonito irritado. É que aquela ruguinha entre as sobrancelhas se formava e te deixava mais maduro. Você ficaria lindo mais maduro. Ia para o banheiro abria a gaveta e pegava todas as caixinhas de remédio. Eu procurava deixá-las vazias, mas não era sempre que me lembrava ou queria. E como se fosse uma criança gulosa diante de balas de todos os sabores você abria os potinhos e jogava dentro da sua caneca de fazer gargarejo depois de escovar os dentes. As suas balinhas tinham tamanhos, formas e cores diferentes. Você gostava mais daquelas com duas cores e por isso colocava maior quantidade delas. Jogava dentro da sua caneca de fazer gargarejo depois de escovar os dentes e bebia. E assim você morria mais uma noite.

            Eu acordava à zero hora e dez minutos. Olhava para a porta de entrada e via o seu sapato debaixo do interruptor de luz. Desesperado, corria até o quarto e te encontrava desmaiado. Era quando eu podia te observar sem que isso te incomodasse do jeito que te incomodava ultimamente. Sem que você metesse a mão na minha cara. Sem que você me proibisse de sentir alguma coisa e sem deixar que o seu ódio por mim transparecesse e a sua vontade de me mandar embora te tomasse. Eu costumava me trocar e te levar ao pronto-socorro. Você acordava e tudo voltava ao normal: a sua frieza, indiferença, raiva, impaciência. Por isso naquele dia, resolvi mudar a nossa rotina. Eu poderia acabar de vez com o seu sofrimento. Não com o meu. Mas não me importava. Eu também era infeliz, mas não tinha alguém que me amasse como eu te amava. Não tinha alguém que quisesse acabar com o meu sofrimento. Por isso peguei o travesseiro e coloquei sobre o seu rosto desacordado. Fui para o banheiro e abri a gaveta das caixinhas de remédio, lá também estava ela. Eu procurava deixá-la vazia, mas não era sempre que me lembrava ou queria. Voltei ao quarto. Você com um travesseiro na cara. Atirei uma, atirei duas, atirei três vezes. Aliviado, voltei à sala, deitei no sofá e liguei a TV. Mas estar ali não fazia mais sentido. Voltei ao quarto. Você com um travesseiro ensangüentado na cara. Eu me deitei na cama e dormi ao seu lado, pela primeira vez depois de tantas noites.

*CIAO – Estréia: 06 de outubro – Instituto Cultural Capobianco – Outubro - Sábados e Domingos – 21h

terça-feira, 21 de agosto de 2007

A DANÇA

Andavam no canteiro central da avenida quando ele a convidou para um dança. Dançaram lá mesmo, debaixo da placa de retorno. Ela interrompeu:
- Pare.
- O que foi?
- Não me desça.
- Eu não vou te soltar.
- Não quero fazer este passo.
- Confie em mim.
- Você pode me largar...
- Eu não quero.
- Preciso dos meus pés no chão. Me solte!
- Tem certeza?
- Não quero ir tão longe com esta dança.
Afastaram-se e atravessaram a rua, sem comentar o episódio. Despediram-se sem saber que aquela seria a última vez.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

VAI PASSAR

Quando acordei você ainda estava lá. Eu não queria. Não te expulsei, porque quis olhar para você. É o meu segredo. É sempre bom olhar para você. Eu consigo, durante um dia inteiro, sem enjoar. Porque você não passa.

Enquanto a água quente do chuveiro escorria, você me observava através do vidro do box embaçado. Vá embora ou fique de uma vez!

Quis me levar até o carro. Não é preciso simular um romance. Na porta, um ímpeto: entrou e me acompanhou até o trabalho. Passe, por favor.

Quando chegamos, continuou ao meu lado. Tentei trabalhar, mas você me distrai. Todos me pegam olhando para o vazio e não têm mais dúvidas sobre você. Nego. Como sempre. Não deixo você existir para ninguém. Também não pronuncio o seu nome. Soaria real.

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Depois do café você passou. Depois do café você não fazia mais sentido. Vá embora, por favor. Não volte, a menos que eu me permita dizer que gosto de olhar para você.

terça-feira, 24 de julho de 2007

RECOMENDAÇÕES

Eu, deitada, serena, de olhos fechados e margaridas cobrindo o meu corpo do quadril até os pés. Obrigada, mãe. Era exatamente essa flor que comporia o meu buquê de casamento. Você preferia as rosas vermelhas, a tia também, mas gosto da beleza simples da dessa florzinha pequena e branca como eu. A família veio em peso. Achei que não gostassem de mim. Ou ficava quieta em algum canto da sala ou alfinetando o comportamento cafona de alguém ou me controlando para não pensar nisso ou duvidando que não haja um micareteiro na família da Fernanda Torres. A realidade: estavam ali por causa da minha mãe. Depressiva, apegada, frágil, dependente, dramática. Sou vaidosa e não aprovo a foto que está em cima da mesa. Poxa, mãe! Chegou uma coroa de flores. “Saudades. Amigos do Trabalho”. Onde estão que não vieram? Deletem o meu perfil no orkut! Pai você tem a senha. Não quero saber de mensagens para uma defunta. É esquisito. Nada de você vai fazer falta, te amamos para sempre, você foi única, não existirá melhor amiga, sua alegria ficará em nossas memórias. Não estarei mais aqui para ler nada. E juro que se for possível, volto e puxo o pé desses atrevidos. Um por um. Durante as madrugadas frias e sombrias de julho. É um desrespeito. É cômodo. Gostam de mim? Visitem-me no “Chora Menino”, estarei ao lado do limoeiro, onde se pode ver o pôr-do-sol mais bonito no verão de São Paulo. Tratem de não me esquecer ao longo dos anos. Quero figurar nos assuntos das festas de aniversários, nas fotos dos vídeos de casamentos, nas mesas das happy hours, na tela de proteção do computador, na lágrima e no soluço quando ele se tranca no quarto para chorar por mim sem que ninguém saiba. Quero todas as nossas cartas dentro de uma caixa especial colocada em um lugar de destaque na sua sala e que a sua mãe se emocione sempre que vocês se  lembrarem de mim.

Deixem meus livros para a Joana, o carro para o meu irmão, minha cortinha de fuxicos para a Lila. Devolvam a coleção do Cartola para o Beto. Se quiser e tiver coragem, ela pode ficar com as minhas roupas. Registrem os meus textos, vai que. Atendam o meu celular e anotem o e-mail das pessoas (eu escrevi  uma mensagem especial para os meus amigos atrasados). Não doem a Algodão para ninguém, por favor. Pintem a parede do meu quarto de vermelho e chamem a Ale para ver como ficou.

Fui embora e não realizei nada. Não era a minha hora. Nunca é. Quando ele se foi ainda sonhava tanto, ainda planejava voltar ao Brasil e morar nas serras gaúchas, fazer uma horta e cuidar de coelhos. Eu ainda queria uma vista para a lua, o marido de calça de pijama e as nossas tardes cheirando a manjericão e doces de Cora Coralina.

 

segunda-feira, 23 de julho de 2007

VENTO QUENTE

- Esse vento quente é gostoso.
Enquanto, juntos, esperavam a amiga se despedir de todos, ficaram quietos.
Fale alguma coisa, ela pensou.
Ele não falou.
Então faça qualquer bobagem.
Ninguém fez.
Ela olhava para a parede.
Ele, para o céu.
- Esse vento quente traz chuva. Gosto da chuva que vem depois destes vinte e cinco graus.
Ele pensou em fazer graça e não fez, porque se sentiria imbecil.
Ela pensou que ele poderia fazer uma gracinha imbecil qualquer.
Continuaram a pensar demais.
Ela enrolava o dedo no cabelo comprido, de maneira repetitiva.
Ele, com as mãos nos bolsos, continuava olhando o céu.
A amiga chegou e a levou embora. 
Não teve coragem de olhá-lo nos olhos ao se despedir e ele não teve vontade.
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