(texto lido no terceiro sarau da AIC em 4 de junho)Acrescento um ramo de alecrim. Os murros começam quando fecho a porta do forno. Enxugando as mãos no avental recém-lavado, abro a porta da frente. Perguntam-me sobre você, Adelaide.
- Sumiu há um mês. Já disse.
São bem menos simpáticos, os dois policiais, desta vez, e como já conhecem a casa, saem à sua procura pelos cômodos. Você sabe, querida, que tenho manias. Não gosto de pessoas bagunçando as minhas gavetas.
Aguardo encostado à geladeira e acendo um cigarro. O maior deles quer me filar um. Entrego-lhe dois, acompanhados do sorriso, que você muito bem conhece. Minhas rugas os relembram como é doce um velho.
- Que cheiro bom...
Choro. Você diz a mesma coisa sempre que o alecrim começa a perfumar a cozinha.
Acham-me gentil quando ofereço um pedaço do assado. Anoitece. Como não matar a fome dos coitados, que nem almoçaram? Culpa de um chefe carrasco que só pensa nos olhos do Secretário de Segurança.
Com as bocas meladas, vão embora satisfeitos. Desculpam-se pelo incômodo.
Ao fechar a porta, vou, vaidoso, comprovar o sucesso da minha receita.
Sua língua continua deliciosa, Adelaide, meu bem.


