quarta-feira, 20 de agosto de 2008

SILÊNCIO


Em vez de ditar-se à boca

a palavra recuou

Mais graça teria

um dedo indicador

contar segredos

à superfície de uma mesa molhada

de gelo

derretendo

no canto do bar

CHAT


Chego atrasado como sempre faço. Largo o carro no estacionamento. Portas abertas. Quase esqueço o comprovante e levo as chaves. O filme está para começar. Ele me esperou?

Um homem, o de sempre, bonito, bem bonito, me pede um cigarro. Ele sempre me pede cigarro. Devo ter cara de fumante. Na volta passarei em uma padaria para comprar um maço. Poderemos conversar da próxima vez.

Ele não está no saguão. Entrou? Ligo. Caixa Postal. Falo com o porteiro. Nenhum homem de boné entrou na sala. A moça da bilheteria deve saber. É alto. Charmoso. Olhos verdes. Ela teria notado. Ele não veio. Mentiu? O caixa do café! Ele parece gostar de café. Parece ter o hálito de café e hortelã. O caixa só vendeu capuccinos hoje. Tem cigarro. Marlboro, por favor. Ele não veio. Teve medo. Eu é que não vou desperdiçar uma noite quente com diálogos mal-escritos. Prefiro jogar xadrez.

Na porta do cinema, o homem, o de sempre. Olha para mim e sorri.

(Continua...)


segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O FIM DO BAILE

(Inspiração da semana: espere sentada.)

Espera de pé por uma dança

Quando cansa,

senta-se

Quando procurada,

valsa

Quando tocada,

deita-se

De um lençol marcado,

levanta-se

e veste-se

para contrariar o desejo de quem nela enlouquece

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

SEU NOME

O som surge

A língua seca

O coração breca

 

A mão balança

frenética

O olhar escurece

dramático

 

a garganta entupida

de restos embriagados

hesita

 

A palma sua

Um sorriso tonto

se mistura

ao dia todo

 

Só de ouvir

terça-feira, 10 de junho de 2008

ASPIRINA

- Pegue a aspirina para mim!

            Ela guarda os remédios dentro de uma caixa velha de sapatos, que deixa em cima da geladeira. Talvez as gavetas estejam entupidas de potes Tupperwares queimados, oleosos e sem tampas. Além de aspirina, sal de frutas, remédio para o estômago, calmante, antialérgico e Band-Aid. Suas dores são tão fortes durante a noite, que é incapaz de se levantar da cama. Espera-me chegar.

Prefiro a solidão. Entrar em casa e esquecer a sandália ao lado do sofá junto com a bandeja que usei para jantar macarrão instantâneo em frente à televisão. Dormir em meio a roupas sujas jogadas em cima da cama e acordar seis horas depois com a música gospel que toca no rádio-relógio. Em vez disso, é a voz rouca dela que me desperta, pedindo três reais para comprar o pão.

- Pegue a aspirina para mim!

Procuro em vão por talheres limpos e guardanapos de papel. Esquento o jantar, que ela deixou pronto para mim em cima do fogão: arroz, cenoura refogada e filé de frango. Penso em reclamar a falta de feijão. Seu arroz continua empapado, a cenoura, crua e o filé, malpassado. Mas o cheiro é bom.

Ignoro a caixa de sapatos. Vou até o quarto dela e, sem acender a luz, dou-lhe o copo de água e uma pedrinha branca que decora o aquário do peixe.

Antes que se entregue aos sonhos, suas dores cessam.

 

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