sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

DA BOCA DE ALGUÉM: SUAS PALAVRAS CONDUZIDAS PELO VENTO



esqueci de beber água há dois dias. cortar as unhas e passei vergonha no exame médico. os óculos de sol estão dormindo em algum dos sete lugares em que sobrevivi nesta semana. esqueci a escova de dentes no último quarto em que estive e posso provocar o dono dele dizendo que quero acalmar. ser só dele, enquanto dançamos mudos no meio de uma pista sufocada de olhares-gordos em cima da mão dele invasora de decotes. esqueci que devia dinheiro para um amigo e me lembro disso toda vez que deito, e seria indelicado ligar para lembrá-lo de me lembrar. esqueci como me sentia quando você me acordava. e vou me esquecer de bem mais. quando você cheirava a comida antes de absorvê-la, como eu faço antes de tomar chuva.
mas não esqueço. meu corpo não esquece. meu texto não esquece.
como metiam o dedo nas minhas inquietações dizendo que minhas páginas, minhas palavras, o jeito como choro, como coro, me embriago, me rasgo numa noite onde tudo é só brincadeira e abandono; não passavam de meninice. que preferiam meu silêncio. que o que gerava o formigamento nos meus dedos boiava em minha boca e eu não engolia. assim que nascia, escorria para o lixo por destino.
perceber que você não passa de uma foto, de um papel cheiroso e vazio, de um vaso que não afaga flores. foi essa a doença? meu diagnóstico proferido por dicionários ambulantes - quando a palavra não cabe, quando a palavra não excita, quando a palavra é só palavra. receber como verdade o que salivas congeladas, cérebros precisos te comunicam, como se não pudesse trocar a estação do rádio com sua própria vontade. como se não tivesse mãos. gritar quem você é: talvez a primeira tentativa de se decifrar.
esqueci de gritar por tanto tempo.
hoje sou escândalo, carta, troca, resposta. a crença em minha superficialidade: esquecida na marra.

18 comentários:

Anônimo disse...

Texto lindo!

Dani disse...

Impressionante como a Priscila descreve em duas frases curtas tudo o que qualquer pessoa está sentindo. Parabéns de novo, e de novo, e mil vezes mais.

O Diário de Daniel May disse...

Muito bom. Você escreve muito bem!
Da uma olhada no meu blog se puder. Tô seguindo aqui =D

Gabriela Freitas disse...

"Esqueci na marra"
Nessa marra eu estou esquecendo.
Você escreve muitíssimo bem, achei seu blog por acaso e fiquei encantada com suas palavras.

La Lume disse...

Esquecer esta ligado ao passado e a todos os bons momentos?! como querer esquecer?

Maya Quaresma disse...

Tem certas coisas que por mais que tentemos, não nos permitem esquecer. Ficam marcadas feito ferro. Dói. Corrói.

Não sei como te encontrei, mas o bom foi que te encontrei. Sentia falta de encontrar lugares assim, com textos viciantes.

Um beijo
Maya Quaresma
http://sobaluzdalua.blogspot.com.br/

shinryu disse...

Não posso julgar se o texto fala sobre ti ou é expressão poética, mas está maravilhoso, por incrível que pareça descreve muito de momentos que tenho passado.

http://diariodeumamoreterno.wordpress.com/

priscila nicolielo disse...

:)

priscila nicolielo disse...

quais são? põe na roda! rs

priscila nicolielo disse...

:)

priscila nicolielo disse...

Oi Gabi, apareça mais vezes. ;)

priscila nicolielo disse...

aguentar então, né. rs

priscila nicolielo disse...

obrigada Maya.
volte sempre que quiser.
beijo

priscila nicolielo disse...

que bom!

Srta. Vihh disse...

Belíssimo texto!
Gostei muito daqui, estou a seguir.
mil beijos

priscila nicolielo disse...

obrigada, querida. volte mais. :)
beijos,

Roberta Debossan disse...

que bom!

Roberta Debossan disse...

que bom!

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