terça-feira, 12 de março de 2013

SÓ PODEMOS TORCER PRA UM TIME?


O dia mais confuso da minha vida foi agorinha, essa quarta-feira. Tive o pensamento encaracolado por causa de uma partida de futebol decisiva. Não tão importante para o campeonato, quanto pra mim.

Nasci em Lins, conhece? É uma cidade pequena e quente, do interior de São Paulo, rodeada por outras cidades menores e igualmente quentes. Simpática a minha Lins. Ainda bebê, minúscula mesmo, vim tentar a vida na capital. Me meteram numa fralda do Palmeiras  e enfrentamos, pai, mãe e neném verde, 444 quilômetros de estrada.

Apesar da fralda, eu não era bem uma palmeirense. Quer dizer, meu pai se aproveitou da inexperiência dos meus três meses de vida, para registrar momentos de uma mini torcedora que até hoje não existo. Resultado: Fotografias puxadas pro marrom, com bordinhas arredondadas e a data no cantinho: junho/81, provas irrefutáveis da minha escolha pelo Verdão. Você jogou sujo, pai.

Não tão sujo quanto a minha boca de sorvete, naquela tarde, há muito tempo, quando eu pisei no Gilbertão, o estádio de Lins, minha primeira e única vez num estádio. O vô Tito tinha me comprado um picolé de milho-verde - o meu preferido de pequena - do carrinho que um senhor guiava todas as tardes, tocando uma gaitinha pra direita e pra esquerda. Você se lembra desse som? Pra lá e pra cá. O gramado do campo tinha falhas e não sei muito bem se estávamos lá - eu e meus irmãos - por causa de uma pelada ou de espaço para empinarmos nossas pipas, encharcadas de cerol na linha.

Se for por recordações, por deliciosas recordações, grito Vai Linense! Mas o Palmeiras. O Palmeiras é quase segunda pele, você me entende? Eu olho pro meu álbum de fotos de bebê e me convenço Porco Oô Porco Oô Porco Oô Oô Oô. Fora que eu fico bem de verde. No duro, fico mesmo. Tenho muitos vestidos dessa cor.

Então nessa quarta-feira, uma questão entrou em campo. Lá em Lins, numa noite inevitavelmente abafada, protegidos pelo céu mais limpo que eu conheço, jogadores se esparramavam pelo gramado do Gilbertão: os jogadores da casa, nós linenses, e os jogadores de fora, nós palmeirenses.

Pra quem eu deveria torcer?

Eu não torço, você sabe. Pra nada. Só torço pra um aumento no meu salário. Pro meu cartão de crédito passar na próxima compra. Pra fazer sol no final de semana. Pro meu cabelo não cair com a tintura. Pro novo filme do Woody Allen sair logo. Pequenos prazeres.

Mas caso me sentasse na frente de uma TV sintonizada no jogo, caso tivesse paciência pra assistir a um jogo, como escolher entre o time da cidade que nasci e voltei por anos para comemorar o Natal e a Páscoa e o time, cujo símbolo enfeitou meu primeiro figurino, a fraldinha? Seria como ter uma resposta para aquela pergunta sacana que te fazem no Jardim da Infância: você gosta mais do seu pai ou da sua mãe? Talvez, se eu tivesse uma luz pra essa questão, decidir entre o Linense e o Palmeiras seria menos desgastante. Mesmo que essa escolha só tenha me amargurado por quatro segundos da vida. Os quatro segundos mais enroscados que já conheci. Fico com os dois: meu pai e minha mãe.

Leia a coluna no site do Terceiro Tempo.

2 comentários:

disse...

"Me meteram numa fralda do Palmeiras e enfrentamos, pai, mãe e neném verde, 444 quilômetros de estrada."

Incrível essa frase!

priscila nicolielo disse...

hahahahahahaha
é verdade...

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